O mistério da nossa política externa

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Publicado quinta-feira, 1 de março de 2007 as 15:07, por: cdb

Ainda está para ser explicado o notável contraste entre a mediocridade de nossa política econômica e a ousadia de nossa política externa. Lula passou a perna no próprio Bush, o dirigente máximo do Império, ao assinar os acordos de cooperação com o presidente Tabaré Vasquez, do Uruguay.

Nossa política externa tem sido audaciosa desde o início do governo Lula. Não aceita uma determinada correlação de forças como dada. E nem fica só nas queixas. É criativa, bolando novas iniciativas sempre que se apresenta um impasse ou um novo obstáculo. Sai a campo e costura alianças, mudando a correlação de forças. Foi assim que conseguiu enterrar a ALCA, abrir os mercados do Oriente Médio para o Brasil, criar o grupo dos 20, e impor novos termos de negociação na rodada de Doha.

Lula teria dito dias desses, segundo um jornal, que Meirelles lhe inspira confiança e por isso não o substitui. Será essa a explicação? O grau de confiança ou segurança que um ministro transmite? Amorim fica pelo mesmo motivo? Por que sua política externa inspira confiança? É uma explicação, mas fraca.

Sabe-se também que Celso Amorim e Samuel Pinheiro Guimarães representam toda uma geração do Itamaraty que tinha concepções maduras e estruturadas sobre o Brasil e seu papel no mundo, e que vinha sendo sufocada pelos governos anteriores. A nomeação dos dois para os cargos chave do Itamaraty liberou a energia vital desse grupo, que estava represada.

É a visão estruturada que transmite a segurança percebida pelo presidente, e não apenas os atributos pessoais do ministro e do seu secretário geral. Meirelles também transmite confiança porque é portador de uma visão estruturada, só que é a visão dos banqueiros.

A questão é crucial, porque se a mentalidade de nossa elite sempre foi dependente e colonizada, a quebra da relação de dependência dos Estados Unidos é um pré-requisito para qualquer projeto de desenvolvimento nacional.

Temos o pré-requisito, mas, paradoxalmente, não temos o projeto nacional. Raciocinando às avessas, talvez não temos por falta de uma força intelectual comparável ao grupo de Celso Amorim e Samuel Pinheiro Guimarães, que seja portadora de uma visão estruturada, orgânica, clara e contemporânea de um projeto nacional alternativo ao desastre das desnacionalizações da era FHC. Temos a visão dos sindicalistas. Mas ela é setorial e desestruturada.

Daí a importância de se desencadear hoje um debate acelerado e intensivo de um projeto nacional, que atraia e aglutine pensadores ainda dispersos, defasados, mais ocupados com a produção burocrática do saber ou simplesmente sem interlocução suficiente em entre si. Temos visões orgânicas setoriais, mas não um projeto nacional que junte tudo numa proposta coerente e mobilizadora. Carta Maior poderia ter um papel nisso.


Bernardo Kucinski, jornalista e professor da Universidade de São Paulo, é editor-associado da Carta Maior. É autor, entre outros, de “A síndrome da antena parabólica: ética no jornalismo brasileiro” (1996) e “As Cartas Ácidas da campanha de Lula de 1998” (2000).