O medo, a violência e a indiferença

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Publicado quinta-feira, 25 de janeiro de 2007 as 14:27, por: cdb

Violência. Talvez esta tenha sido a palavra mais escrita nas últimas décadas. Quanto mais o tempo passa, mais ela ocupa os espaços gráficos dos jornais, dos livros, das dissertações acadêmicas. Usada como justificativa para o desemprego, para a reclamação da população por falta de segurança, de perspectivas na vida, para as escassas chances e oportunidades no mercado de trabalho e de realização pessoal, a violência, por sua vez, tem preenchido a lacuna que outrora pertencia aos sonhos. Parafraseando certa campanha presidencial brasileira, o medo, filho da violência e do fracasso, tem suprimido, infelizmente, a esperança, e cede caminho para outro grave mal contemporâneo: a indiferença (“não tenho nada que ver com isso”).

A tríade medo-violência-indiferença tem desenvolvido nas pessoas um certo receio em acreditar no outro e até em si próprio. Como diz o velho ditado, “só morre o que já estava morto, pois nemo dat quod non habet – ninguém dá o que não tem”; e a velha chama da esperança que ainda fumegava tem cedido sua força motriz para o egoísmo, o ostracismo e, portanto, para a descrença na alteridade.

Antes, os nossos ancestrais primatas acreditavam que, se vivessem unidos em grupos, dificilmente perderiam o espaço geográfico conseguido com duros esforços: expulsar feras indomáveis, tripudiar contra antigas tribos locais, preservar e expandir o local onde o corpo repousaria, certamente, não era nada fácil. Viver em comunidade significava, ao mesmo tempo, um desafio e um convite. Desafio, pois aceitar o outro como é, dispor da própria privacidade, ceder, embora a vontade fosse outra, não são coisas fáceis; convite, pois se abrir ao outro é sempre uma aventura, não dá para saber o que o outro pensa e qual será a sua forma de agir e de reagir. No espaço da comunidade primitiva não havia fendas para desabrochar o medo; ali estava o outro integrante do meu grupo para me defender e ser defendido por mim, se assim fosse necessário. Eles sabiam, podemos supor, que as regalias, os direitos e os benefícios individuais somente seriam mantidos se todos defendessem, com unhas e dentes, dando o melhor de cada um, para a manutenção interna da ordem; o individual, neste ínterim, só teria sentido se o grupo fosse coeso, unido, articulado, organizado, todos como se fossem apenas um. Não obstante, podemos crer, que nesse ambiente coletivo não deveria existir espaço para a diferença, muito menos o desprezo ao menor, visto que se houvesse mecanismos para o desenvolvimento da desigualdade e, portanto, da superioridade de alguns sobre outros, problemas futuros poderiam acontecer, porquanto não é costume humano defender aqueles que nos subjugam e nos vilipendiam.

Ora, se a desigualdade rompe com os laços íntimos que garantem a sociabilidade e a paz, para que tais benefícios coletivos mantenham-se é preciso revogar todos os malefícios que garantem o alastramento da diferença, da discriminação e da desigualdade. Mudar os excessos não significa mudar os princípios. A paz e a coletividade são os princípios básicos da sociabilidade entre os seres humanos. Não obstante, infelizmente, erradicar os excessos de benesses de alguns, ainda que para garantir os princípios sociais prazerosos para todos, não se iguala a uma mera conta de subtrair. Mexer na opulência, propor a divisão igualitária de todas as riquezas nacionais, suprimir o ódio entre grupos étnicos diferentes, apaziguar os ânimos daqueles que teimam debater só para não cederem, não são coisas muito fáceis, como espantar feras selvagens com pontas mortais cheias de fogo. Não é à toa que, segundo os pensadores existencialistas, a grandeza humana nada perde à sua pequenez, a ambição.

Todas as outras palavras de nosso dicionário são adoráveis e melífluas. Saudade, amor, esperança, sonhos, perdão, vitória, felicidade, paz…  Mas todas são política e verdadeiramente possíveis somente quando formos capazes de amenizar aquilo que nos torna pequenos, limítrofes e egoísta