O maior escândalo da eleição

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Publicado quinta-feira, 19 de outubro de 2006 as 11:45, por: cdb

A Operação Tabajara do Departamento de Inteligência (sic) do Comitê de Reeleição do presidente Lula conseguiu perder o título de maior escândalo desta eleição. O jornalista Raimundo Pereira revelou na edição desta semana da revista Carta Capital que o maior escândalo desta eleição não foi protagonizado por políticos nem por militantes dos partidos que estão disputando o poder. O crime mais escandaloso desta eleição foi cometido pela imprensa. Mais precisamente por, pelo menos, cinco dos principais órgãos da mídia nacional: os jornais O Globo, Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo, a TV Globo e a Rádio Jovem Pan.

De forma deliberada, consciente e vergonhosa, profissionais que trabalham nesses veículos enganaram seus leitores, ouvintes e telespectadores com o objetivo de alterar o curso da eleição presidencial, evitando a vitória do presidente Lula no primeiro turno. De forma clara, objetiva e honesta, Raimundo Pereira mostrou como eles omitiram do público o declarado interesse político por trás da divulgação das fotos do dinheiro que seria usado para comprar um dossiê com supostas provas de que pessoas ligadas ao candidato tucano José Serra teriam recebido propina dos empresários que organizaram o esquema de desvio de recursos do Ministério da Saúde, conhecido como Máfia das Sanguessugas. Pior que isso: mentiram ao tornar pública uma versão, que sabiam ser mentirosa, do delegado que vazou as fotos.

Esse escândalo coloca de novo na pauta de uma sociedade que se pretende democrática a discussão sobre a necessidade de um Conselho Federal de Jornalismo. Um órgão que tenha a prerrogativa de julgar e punir com severidade quem infringir a ética jornalística. Tal como fazem, por exemplo, o Conselho Federal de Medicina ou a Ordem dos Advogados do Brasil. Jornalistas, muitas vezes, são coagidos a distorcer a verdade para contentar chefes e patrões. Mesmo quando descobertos, não sofrem punição alguma da sociedade. Primeiro, porque os meios de comunicação omitem as leviandades uns dos outros. Segundo, porque as entidades de classe dos jornalistas estão moralmente falidas.

Não são respeitadas pela própria classe. Que não enxerga nelas o esteio de proteção de seus interesses e de sua dignidade. Não são respeitadas pela sociedade. Que não enxerga nelas o esteio de proteção do direito à informação precisa e correta, sem censura nem auto-censura, sem obstruções que lesem os interesses sociais e coletivos em nome de quaisquer outros interesses. E não são respeitadas porque não se posicionam de forma firme em casos como o revelado pela reportagem de Carta Capital. Para citar apenas um exemplo: por que a Comissão Nacional de Ética da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) não tomou qualquer iniciativa (inciso III do artigo 9º do Regimento Interno da CNE), quando Luiz Costa Pinto, um profissional que trabalhou no comando de várias publicações do país, confessou, dez anos depois, ter compactuado com uma mentira publicada na revista Veja para tornar mais escandalosa a denúncia de que o ex-presidente da Câmara Ibsen Pinheiro teria recebido dinheiro dos chamados “Anões do Orçamento”?

O governo Lula prestou um grande desserviço à profissão de jornalista ao encaminhar ao Congresso, a pedido da direção da Fenaj, um projeto de lei intempestivo e imaturo, prevendo a criação de um Conselho Federal de Jornalismo. Mas foi covarde ao retirá-lo da pauta sem permitir que fosse minimamente discutido. Assim como a Fenaj foi incompetente para fazer sua defesa. Os jornalistas precisam de um órgão independente e com poderes autárquicos para proteger os jornalistas do mau jornalismo. A reportagem de Raimundo Pereira é a prova disso. Em um mercado de trabalho estreito e competitivo, é preciso ter extrema coragem e desprendimento para dizer “não” ao chefe.

O CFJ pode vir a ser a garantia de que nenhum interesse, econômico, político, financeiro ou pessoal, obstruirá o dever do jornalista informa