O Homem Urso, de Herzog, chega aos cinemas brasileiros

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Publicado quinta-feira, 1 de junho de 2006 as 13:53, por: cdb

No documentário <i> O Homem Urso</i>, do alemão Werner Herzog, é difícil não cair na armadilha de julgar o filme pelo seu personagem. O centro do filme, que estréia nesta sexta-feira, é o pseudo-ecologista Timothy Treadwell, que ao longo de treze anos foi abandonando cada vez mais a vida entre os seres humanos para conviver com os ursos pardos de um parque do Alasca.

Ator frustrado, Treadwell resolveu por contra própria e sem nenhum preparo acadêmico estudar e cuidar de ursos. Por treze anos ele se instalou na península do Alasca durante o verão, às vezes acompanhado, e, nos últimos anos, com uma câmera na mão, com a qual registrou aquilo que chamava de pesquisa.

Os ursos pardos são considerados uns dos animais mais perigosos do mundo. E Treadwell acabou descobrindo isso do modo mais duro. Ele foi devorado por um de seus “amigos” em outubro de 2003. Essa foi a primeira agressão do tipo registrada no Parque Nacional e Reserva Katmai.

Experiente e esperto, Herzog – de <i>Aguirre, A Cólera dos Deuses</i> – sabia que tinha um personagem poderoso nas mãos. O filme é, em sua maior parte, composto de imagens feitas por Treadwell ao longo dos seus últimos cinco anos de vida.

O que se vê na tela é um ser humano perdendo cada vez mais o contato com a realidade. Se nos primeiros minutos, quando o destino trágico de Treadwell é revelado, a platéia sente pena dele, no final do documentário é possível que essa reação seja bem diferente.

Através de suas imagens, Treadwell se mostra melhor cineasta do que pesquisador ou ecologista. Seu ego gigantesco, maior que os ursos com quem convivia, faz com que qualquer pessoa perceba que ele era um megalomaníaco e que seu final era óbvio. Por mais que Treadwell se julgasse amigo dos ursos e achasse que estava ganhando a confiança dos animais, percebe-se que isso era fruto de sua imaginação e que, em vários momentos, ele esteve bem próximo do perigo.

Se a Disney tem alienado as platéias há anos com ursinhos fofinhos e dóceis, Herzog e Treadwell mostram que as leis da natureza são outras. Se as cenas gravadas por Treadwell mostram a luta do homem contra a natureza, a montagem de <i>O Homem Urso</i> aborda a luta do homem contra sua própria natureza. Treadwell parecia viver num mundo próprio. Chegam a ser engraçadas algumas cenas que registrou com sua câmera, mostrando mais compromisso com seu ego do que com aquilo que chamava de pesquisa. Quando encontra uma abelha presa a uma flor, por exemplo, chora a sua morte desesperadamente – para segundos depois concluir que ela pode estar apenas dormindo.

O longa ganhou diversos prêmios de melhor documentário, como o da Associação de Críticos de Chicago, da Flórida, Nova York e Toronto. Herzog também foi escolhido melhor diretor de documentário de 2005 pelo sindicato dos cineastas dos Estados Unidos.

– O Homem Urso  não consegue mostrar quem foi Timothy Treadwell – nem é esse o objetivo do filme. O que o diretor pretende é fazer uma investigação sobre o comportamento humano. O que torna o documentário ainda mais poderoso é que Herzog consegue mostrar o pesquisador em sua essência, sem estar atuando ou fingindo. E temos o registro de assustador, resultando num filme impressionante.