O fusquinha se aposenta

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Publicado sábado, 7 de junho de 2003 as 16:34, por: cdb

Um símbolo da indústria automobilística sairá de cena nas próximas semanas, deixando uma legião de fãs. A direção da Volkswagen confirmou nessa sexta-feira, em Frankfurt, os rumores de que o Fusca deixará de ser produzido na última linha de montagem remanescente, na fábrica de Puebla, no México.

Apenas 50 unidades do modelo que foi sinônimo de popularização do automóvel no século 20 ainda eram montados diariamente.

Foram 65 anos desde o lançamento do primeiro protótipo, às vésperas da Segunda Guerra Mundial. Mas o carro que deveria ser uma bandeira da prosperidade sob a suástica dos nazistas acabou sendo fabricado em série apenas a partir de 1945, ajudando na reconstrução da economia alemã.

De lá para cá, foram mais de 22 milhões de carros vendidos em todo o mundo. Um recorde difícil de ser batido, uma vez que o design arredondado pouco mudou no período, enquanto outras marcas tiveram sucessivas famílias de modelos, muitas vezes absolutamente diferentes entre si.

Não seria justo associá-lo apenas ao nazismo e à ditadura militar brasileira. Quem tem idade suficiente deve lembrar do comercial de TV que, ao som de A vida de viajante, de Luiz Gonzaga e Hervê Cordovil (“Minha vida é andar por esse país/ Pra ver se um dia descanso feliz”), mostrava um Fusca desbravando estradas de chão.

Sua história está ligada de forma estreita à industrialização do país. A morte do Fusca chega num momento em que a indústria encontra dificuldades para vender os chamados modelos populares, tanto no Brasil quanto em outros países.

Sinal do achatamento da renda das camadas sociais menos favorecidas, que não têm como arcar com um produto que custa mais de US$ 5 mil (cerca de R$ 14 mil).

– O Brasil está com o freio-de-mão puxado. É um momento difícil, e o fim do Fusca tem essa força simbólica – diz Alexander Gromow, consultor de empresas e autor do livro Eu amo o Fusca da editora Ripress.

Os besouros começaram a ser montados no Brasil em 1953, mas o Fusca nacional só viria ao mundo em 1959, com a inauguração da unidade da Volks de Anchieta, no ABC paulista, em festa que teve a presença do então presidente Juscelino Kubitschek.

Foram mais de três milhões de carros fabricados no país, até a aposentadoria, em 1986. Durante o governo Itamar Franco, em 1993, foi ressuscitado. Permaneceria em linha, no entanto, apenas até 1996.

Gromow lembra que o relançamento foi uma união entre a nostalgia de um projeto político de carro popular brasileiro e o interesse da Volks em obter vantagens fiscais ao pôr nas ruas um carro considerado obsoleto por muitos.

O fim da linha de montagem mexicana sepulta as esperanças de um retorno. E põe uma pá de cal no sonho de milhões de consumidores que, em períodos de prosperidade e crédito barato, podiam comprar, mesmo a duras penas, seu Fusquinha.