O Euro e um fantasma chamado Silvio Berlusconi

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Publicado quarta-feira, 27 de junho de 2012 as 09:27, por: cdb
Berlusconi
Silvio Berlusconi que pode voltar a política liderando um movimento de direita a fim de tirar a Itália da zona do euro

Silvio Berlusconi fez declarações públicas indicando que pode tentar voltar ao proscênio, como líder de um movimento de direita destinado a retirar a Itália da Zona do Euro. O self-made-show-man lançou até um repto: ou a Alemanha sai do Euro ou ele retira a Itália da Zona da Moeda.

Fantasma? Ele está mais vivo do que nunca, embora perseguido por vários processos judiciais todos ignominiosos, nenhum glorioso, como foi este contra Fernando Lugo, ele sim (o processo) ignominioso, digno das tradições violentas das nossas oligarquias latino-americanas.

Onde se pode medir o peso de Silvio Berlusconi diante do Euro? Ora, no fato de que na sexta-feira, em Roma, reuniram-se Mario Monti, Angela Merkel, Mariano Rajoy e François Hollande, para concertar uma proposta a ser apresentada à próxima cúpula da União Européia, que se realizará dias 28 e 29, próximas quinta e sexta-feira.

Concertaram algo como 130 bilhões de euros, 1% do PIB da União Européia, a serem destinados a um “programa para o crescimento econômico”, embora ainda não se tenha precisado muito bem o que isso significa na prática. Além disso, teriam concordado – vejam só – em que “austeridade apenas” não é suficiente para “incrementar crescimento e gerar empregos”.

Além disso – pasmem, leitores – os quatro teriam concordado sobre a criação de uma taxa sobre transações financeiras (uma espécie de macro-CPMF) como meio de obrigar os mercados a participar da solução e do seu financiamento para sair da crise. É verdade que antes a chanceler Angela Merkel (que saiu apressada da reunião para ir à Polônia assistir Alemanha 4 x 2 Grécia) negociara a adoção dessa taxa com o SPD e os Verdes alemães em troca da aprovação liminar destes, no Bundestag , e do Pacto Fiscal Europeu, do Fundo Emergencial Europeu Permanente. Nada de pouca monta.

Também houve a aceitação, por parte da chanceler alemã, da Alemanha contribuir substancialmente para aumentar em 10 bilhões de euros a capacidade de financiamento de projetos junto à iniciativa privada (destinados à criação de empregos) do Banco Europeu de Investimento, uma espécie de BNDES euro-nativo, embora sem o poder nem a envergadura deste congênere brasileiro.

Vitória da vitória de François Hollande? Sem dúvida. Mas a reunião não se realizou em Paris, e sim em Roma, por iniciativa de Mario Monti. Este padece de legitimidade; como o governo de Federico Franco no Paraguay, o de Roberto Micheletti em Honduras, e o de Lucas Papademus na Grécia (hoje substituído pelo de Antonis Samaras) foi oriundo de um “golpe branco”, desses que pós-modernamente são dados manu economica, manu judiciali, manu constitucionali ou ainda manu congressuali, sem falar no que levou George Bush, the Second, ao poder, graças à manipulação eleitoral na Flórida e sua validação por 5 x 4 no Supremo dos Estados Unidos.

E no bastidor da política italiana havia o perigoso bafo de Silvio Berlusconi, que deu declarações agora de público que pode tentar voltar ao proscênio, como líder de um movimento de direita destinado a retirar a Itália da Zona do Euro. O self-made-show-man lançou até um repto: ou a Alemanha sai do Euro ou ele retira a Itália da Zona da Moeda. Monti, premido por eleições no futuro (abril de 2013), parecendo disposto a organizar seu próprio campo político, reagiu patrocinando a reunião da última sexta-feira.

Todos sabem, apesar das palavras em contrário, na mídia e fora delas: as esquerdas não são uma ameaça ao euro, embora o sejam às políticas ditas de “austeridade”. Mas a direita é. Em vários países. Imaginem, se a pseudo-ameaça da Grécia (ela só sairia expulsa) sair do euro já jogou toneladas de adrenalina nas artérias econômicas da Europa e do mundo inteiro, o que aconteceria com a ameaça da Itália fazer o mesmo movimento.

Blefe de Berlusconi? Pode ser.

A ver.

Flávio Aguiar é correspondente internacional da Carta Maior em Berlim.

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