O embaraço

Arquivado em: Arquivo-CdB
Publicado sexta-feira, 30 de maio de 2003 as 09:36, por: cdb

Falta à ciência política uma teoria do embaraço e de como dele se livrar. Em quase todas as situações há um nó górdio – ou, seja, um embaraço – que deve ser desfeito, preferivelmente pela inteligência, embora o exemplo clássico seja o de Alexandre e a sua espada.
O governo Lula está embaraçado nos juros. Se os juros baixam, dizem os banqueiros, a inflação retorna. Se os juros não baixam, dizem os industriais, o País quebra. Os banqueiros tiveram os seus melhores anos durante o consulado risonho e despótico de Fernando Henrique: multiplicaram por sete os seus ganhos durante o período de oito anos. Os trabalhadores tiveram os seus piores anos: a inflação lhes comeu quase tudo, e os banqueiros ainda querem mais.

No meio de tudo, o Banco Central. O Banco Central, como disse um de seus mais eminentes diretores, “inter-age” com o sistema financeiro. Não se tem notícia de que o Banco Central tenha descoberto qualquer falcatrua nos bancos que fiscaliza: as falcatruas explodem por si mesmas. Pois bem, o Banco Central insiste nas taxas altas, por causa da possibilidade de retorno da inflação. Mas quem poderá produzir com essas taxas? Essa é a pergunta que fazem todas as pessoas de bom senso, sejam industriais, ou não. É fácil combater a inflação impedindo o consumo e a produção e promovendo o desemprego, embora, em algumas situações, e nós as conhecemos, haja a tal de estagflação, ou seja, inflação com a economia estagnada.

O vice-presidente José Alencar faz contas simples: se os juros continuarem nesse patamar, o Brasil terá que declarar falência em breve. Não há como produzir recursos para atender ao Moloch. E nunca ficou tão fácil identificar os interesses: todos os banqueiros, sem exceção, são favoráveis aos juros altos. Houve um deles, no entanto, que, durante o governo do Sr. Itamar Franco disse, na cara do Ministro da Fazenda (sim, era ele mesmo, FHC) que os juros podiam baixar tranqüilamente. Não foi por isso que perdeu depois seu banco, o Bamerindus, mas não há dúvida que, a partir de então, o Sr. Andrade Vieira começou a ser visto de lado pelos rapazes da economia.

O nó górdio poderá ser desfeito pela paciência política? É difícil. Talvez seja melhor que o desate a impaciência dos setores mais lúcidos do governo, entre os quais se encontra a vice-presidência da República. São sempre melhores a impaciência e o grito do que a lâmina de Alexandre.

Mauro Santayana, jornalista, é colaborador do Jornal da Tarde e do Correio Braziliense. Foi secretário de redação do Última Hora (1959), correspondente do Jornal do Brasil na Tchecoslováquia (1968 a 1970) e na Alemanha (1970 a 1973) e diretor da sucursal da Folha de S. Paulo em Minas Gerais (1978 a 1982). Publicou, entre outros, “Mar Negro” (2002).