O embaixador queria napalm contra a Guerrilha do Araguaia (*)

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Publicado sexta-feira, 23 de março de 2012 as 15:34, por: cdb

Por Roberto Drummond
A porta da sala é aberta: está entrando Sua Excelência, o Embaixador dos EUA.

É um homem ainda novo, calvo e barbudo. Mistura um português capenga com espanhol. Verás: está muito preocupado com a Guerrilha do Araguaia. Traz um exemplar do New York Times debaixo do braço e te encara com os olhos estranhamente infantis. Suspeitará que és o dublê? Sentado na poltrona, separado de ti pela mesa de teu escritório, ele te olha. Põe o exemplar do The New York Times em cima da mesa, enfia a mão quase gorda no bolso de dentro do paletó, e tira lá de dentro um pequeno embrulho verdade, onde cabe uma joia ou um perfume e diz, para teu espanto:

– É uno litle recuerdo para la senhorita Manuela.

Receberás este embrulho. Agradecerás. Então o embaixador pega o The New York Times e dando tapas com as costas da mão na primeira página começa a falar:

– Aqui estarrrr, Señor Presidente, perdon, Sinharrrrrrr Presidenta, digo, Presidente, o The New York Times publicarrrrr que la Guerrilha del Araguaia estarrr mucho forrrte. Serrrrr preciso acabarrr com Guerrilha Araguaia, Sinharrrrr Presidente.

– Mas, Senhor Embaixador – tu falas, disfarçando uma certa emoção na voz, a emoção da tua estreia como dublê – É uma guerrilha que não existe.

– Poderrr non existirrrr, Senhorrrr Presidenta, digo Presidente, para jorrrnais brasileños, que estan sob la censura, pero, perdon, mas a guerrilha do Araguaia existir para The New York Times e isto basta, sernharrr.

Dramático, o Embaixador dos EUA fica de pé e caminha diante de ti. Repete: serrr preciso acabarrr Guerrilha del Araguaia, Señor Presidente. Urgentemente precisa acabar.

– Saiba, Senhor Embaixador, os guerrilheiros estão sitiados.

– Como sitiados, Señor Presidenta, digo, Presidente. Vuestro, perdon, vosso goverrrna há enviado 15 mil hombres armados hasta los dientes e, ainda asi, la guerrilha perdura. Acuerda-te, perdon, lembre-se de Batista em Cuba, Senhorrr Presidente. Batista tambien há subestimado los guerrilheiros de Sierra Mastra.

Pediras ao embaixador que se sente. Perguntarás se não aceita um copo d´água com açúcar. Ele agradece e se senta. Tira do bolso do paletó um pequeno frasco de plástico, lembrando um colírio, e cheira.

– Serrr saborrr menta, Señor, perdon, Sinharrrr Presidente.

Conta então que serviu em Havana no tempo de Batista. Recordará a ti o cabaré Tropicana. Recordará uma rumbeira. Cantará “Aquarela do Brasil” em portunhol. E, parando bruscamente de cantar, pergunta:

– E el napalm, Senhorrr Presidenta?

Nada sabes sobre napalm. Mas agiste como se soubesses, para não despertares a suspeita do embaixador. Ele diz: com o napalm, em cinco dias, era uma vez a Guerrilha do Araguaia. Batista chamava os guerrilheiros de reles fedelhos. Pronunciou tudo corretamente em português. Disse que a Casa Branca esperava ansiosamente uma decisão do Brasil sobre a compra de napalm para acabar com a Guerrilha do Araguaia.

– Perdão, senhor embaixador – tu falas então. – Mas não me ocorre que o napalm usado no Vietnam tenha acabado com a guerra. Simplesmente encheu o mundo de horror, com a cena da menina vietnamita ardendo em chamas, mas não acabou com o Vietcong. Pelo contrário: deu força ao Vietcong.

O Embaixador te examina como se não te conhecesse. Por um momento parece duvidar do que vê e do que escuta.

– Vuelvo, perdon, volto dentro de quinze dias, Senhor Presidente. Hablaremos sobre el napalm.

O Embaixador dos EUA deixa o Palácio da Alvorada, onde foi excepcionalmente recebido para evitar que fosse visto entrando no Palácio do Planalto para falar com o ditador, e tu é entusiasticamente cumprimentado pelo General-Presidente, pelos ministros militares e pelo General Aranha. Saíste muito bem no teu primeiro texto oficial como dublê. Passas então às mãos do ditador o embrulho verdade que o Embaixador dos EUA deixou para Manuela e voltas a pensar nela, nessa Manuela feita de sonho.

(*) Título da redação; trecho do capítulo 16 do romance Inês é morta. São Paulo, Geração Editorial, 1988.

 

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