O dossiê do dossiê (IV): Minority report

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Publicado terça-feira, 17 de outubro de 2006 as 19:41, por: cdb

“Meu caro Flávio:

Você se lembra daquele filme com Tom Cruise, o “Minority report”? Nele um serviço de segurança do futuro dispunha de meios para identificar e prevenir crimes. Quando aparecia o nome do criminoso potencial lá na bola de cristal deles, as equipes saíam à cata do suspeito para detê-lo e impedir a consecução do malfeito. No filme tudo acaba dando errado, pois o serviço se baseia numa presunção de culpa típica das sociedades autoritárias, além de outros problemas que não vou adiantar aqui para não tirar o suspense de quem ainda não o viu. Em todo caso, a idéia de
impedir o crime se justificava no filme pela sua natureza: tratava-se sempre de um homicídio. Se não houvesse prevenção, a vítima iria para o beleléu.

Nesta semana várias coisas me trouxeram o filme à memória. Uma delas foi o clima inquisitorial da revista Veja, com sua matéria de capa “Limpeza de alto risco”, em que tenta arrastar Freud Godoy à cena do crime, quero dizer, à cena do dossiê, e logo explicarei a diferença. Clima inquisitorial? Não só isso: deselegante ao extremo. Lá pelas tantas (pág. 58) chama o presidente interino do PT de “O bin laden Marco Aurélio Garcia”. Ora, qualquer um que conheça Marco Aurélio sabe da inadequação da referência.

Mas o macartismo explícito vem numa frase da reportagem de capa, depois de tentar mostrar, com base em documentos anônimos (como anônima era a fonte das famosas fotos do dinheiro no hotel, que no fim não era tão anônima assim) que Freud negociou com Gedimar Passos e com outras gentes (há até insinuações sobre dinheiros) o desmentido deste quanto à participação do primeiro no episódio desastrado da tentativa de compra do dossiê Vedoin/Serra/Barjas Negri.

A frase diz (pág. 49): “A favor de Freud, é claro, se pode levantar a hipótese de que um homem inocente tem o direito de tentar de todas as maneiras, mesmo as mais desesperadas, provar sua inocência”. Que ato falho do redator de plantão, hein, Flávio? Além de declarar Freud inocente, a frase transforma um direito numa hipótese, e inverte o princípio consagrado de que a prova cabe à acusação, não ao acusado. Ou seja, ela saiu diretamente dos princípios que norteavam os processos do Santo Ofício, mais conhecido como Inquisição, em que o ônus da prova era sempre do acusado que, em geral, nem sabia qual era a acusação que pesava contra ele.

Mas há mais, meu caro Flávio. A leitura da matéria brilhante de Raimundo Pereira em Carta Capital, em que ele conta como foi a urdidura da trama das fotos e da ocultação de quem era a fonte, o delegado Edmilson Bruno, por parte da imprensa envolvida, também me lembrou do filme Minority report, mas por outra razão. Edmilson Bruno foi quem deteve os aqualoucos, como diz você, do PT naquele hotel em S. Paulo.

Mas veja bem, meu caro Flávio, esta operação da PF não seguiu seu padrão usual. Vamos voltar no tempo, meu caro, vamos recordar cenas mostradas à larga de casos semelhantes, em que vai se pagar uma propina em troca de um favor. A filmagem é feita até completar-se o delito, a troca de mãos do dinheiro e do objeto ou a promessa do favor. Depois a polícia intervém e pega os caras com a mão na botija, no caso, no dossiê. Neste caso não. Curioso, hein, Flávio? Os agentes envolvidos agiram como no “Minority Reporto”. Os supostos vendedores do dossiê foram barrados antes, e o flagra no hotel deu-se apenas com os atrapalhados compradores.

Começa, caro, que comprar informação não é crime. Tratou-se portanto de um flagra em cima de um não-crime, que sequer chegou a acontecer: o não-crime que não aconteceu! Crime poderia estar na obtenção da vultosa soma, se irregular. Assim mesmo, para caracterizar o ilícito completo, mister se fazia testemunhar a operação em execução, não apenas o projeto de ventualmente executá-la: teria que haver diálogos, troca de idéias, avaliações, mostrando a intenção de usar de modo ilícito o tal de dossiê – que na verdade nem chegou a S. Paulo.

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