O cômico

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Publicado quarta-feira, 30 de março de 2011 as 13:05, por: cdb

E como estamos nós, brasileiros contemporâneos, no nível de nossa expressão cômica?

30/03/2011

 

Leandro Konder

 

A tragédia, por mais dolorosa que sejam suas consequências, pode ser aperfeiçoada e sempre reinterpretada pelos homens. Com o drama e outros gêneros aparecem procedimentos análogos. A comedia, entretanto, cria situações embaraçosas para os que pretendem explicá-la.

O paradoxo está presente desde o momento em que a comedia nasce. Os antigos gregos encenavam peças de conteúdo religioso e os atores, no ritual grego antigo, deviam usar máscaras. Constatou-se, então, que as máscaras e os rituais faziam rir, tornavam-se cômicos.

Enquanto a tragédia emocionava fortemente os espectadores, predominava na plateia a imobilidade. Os deuses gregos cobravam seriedade de seus fiéis; as comedias se enriqueciam esteticamente comentando o que se passava no mundo prático dos gregos, isto é, aquilo que os espectadores sérios desprezavam.

Os manuais de literatura costumam lembrar em especial um autor de comedias que arrancava gargalhadas da plateia: Aristófanes. Nós, no século 21, dispomos de uns poucos exemplares de comedias escritas pelo brilhante autor. Infelizmente, o que os fazia rir não tem o mesmo efeito que tinha sobre esses nossos longínquos antepassados (quarenta e quatro séculos!).

O que fazia rir os gregos de Aristófanes arranca de nós, no máximo um sorriso. Mesmo desgastada, porém, a sociedade ateniense era fustigada pelo espírito gozador, pelo espírito sarcástico do escritor.

E como estamos nós, brasileiros contemporâneos, no nível de nossa expressão cômica? Temos autores magníficos dedicados a nos fazer rir, tanto das classes dominantes e mundinho dos ricos, como de nós mesmos, de nossos medos e inseguranças.

E temos, sobretudo, um grupo brilhante de autores talentosos, e mesmo geniais, como – já no século 19, – o magnífico e sinuoso Machado de Assis, que nos estimula, não tanto ao riso, mas ao sorriso. No final desse mesmo século, a população curtia o humor parnasiano, cujo expoente era, talvez, Emilio de Menezes.

No século 20, tivemos o refinado prazer de rir das piadas do Barão de Itararé, de Stanislau Ponte Preta, de Millor Fernandes e da moçada de Casseta e Planeta. Os palcos do Rio e de São Paulo estão vivos, habitados por profissionais da área do teatro, capazes de investir na encenação de comédias.

Um velho campo de exercício do humor está na área das críticas ao governo. Alguns governantes tiveram a habilidade de transformar piadas contra o governo em manifestações de humor inócuo: o caso clássico de Getúlio Vargas. Já no trem que traria de volta ao Rio, Getúlio foi acompanhado pelo então interventor de Minas Gerais, Benedito Valadares. Benedito, querendo ser gentil, despediu-se: “Adeus, ilustre partinte”. O então presidente respondeu: ”Adeus insigne… ficante”!

O senso da comicidade continua vivo na cultura brasileira. Nela se produz atualmente uma considerável quantidade de trocadilhos, de “grossura funcional”, de observações sarcásticas, contra tudo e contra todos, porém a favor da liberdade.

Millor Fernandes, por exemplo, prossegue sua implacável guerra contra a burrice: “Não devemos resistir às tentações. Elas podem não voltar”. Ou então: “Viver é desenhar sem borracha”.

Nos anos 1930, a escritora Eugenia Álvaro Moreyra dirigia uma pequena clínica de serviço social, quando a polícia irrompeu no ambiente a procura de subversivos. O truculento delegado que chefiava a operação, interpelou-a, ao ver uma seringa de injeção sendo aquecida: “O que é isso?” Eugenia, inabalável em sua polidez esclareceu: “É remédio contra sífilis. O delegado está servido?”

Apesar da aparente confusão, havia na primeira metade do século 20 alguns elementos que o humor logo aproveitaria. Entre eles, os críticos notaram que se destacava a produção do cômico. A classe dominante mantinha uma linha clara de defesa dos seus privilégios e de repulsa ao humor que se aproximava de critérios “populares”.

 

Leandro Konder é colunista semanal do Brasil de Fato.

Publicado originalmente na edição 420 do Brasil de Fato.