O código desconhecido da globalização

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Publicado quinta-feira, 13 de novembro de 2003 as 19:07, por: cdb

Dois dias antes da abertura do segundo Fórum Social Europeu, o Le Monde resolveu abordar o tema da mundialização (como os franceses preferem chamar a globalização) de uma forma um tanto peculiar: sob o pretexto de falar dos temas do Fórum, o jornal dedicou um dossiê especial aos novos-ricos emergentes do Sul do planeta. Brasil presente com uma matéria sobre o “novo-rico” Abílio Diniz, com direito a uma entrevista com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que, em tom solene, anunciou: “a globalização é injusta”. Mas não é injusta para todos, sugere o Le Monde, que apresenta os empreendedores emergentes do Sul como prova de que é possível se dar bem no mundo globalizado.

O primeiro parágrafo da matéria de capa indica que é possível o caminho do sucesso também no chamado Terceiro Mundo: “as grandes fortunas, as burguesias e as classes médias não são mais apanágio da América do Norte e da Europa Ocidental; as primeiras se acumulam discretamente ou com insolência, enquanto que as segundas emergem com mais ou menos facilidade neste novo mundo de riqueza e de desigualdades, criadas pela mundialização econômica: na China, na Índia, na América Latina e na África do Sul”. O recado não chega a ser sutil: a globalização cria tanto novas desigualdades quanto novas oportunidades; é preciso ser esperto para aproveitar estas últimas.

“Por que os antimundialistas ganham terreno”

A partir da apresentação do retrato destes novos ricos, o Le Monde pretende traçar um perfil da nova burguesia global emergente e abrir, assim, um debate sobre o que chama de “questão central”: como analisar a evolução da pobreza e das desigualdades? Essa questão é analisada, então, sob a ótica daqueles que “se deram bem”, que souberam aproveitar as oportunidades. A abordagem peculiar do problema articula-se com uma não menos curiosa crônica econômica, assinada por Eric le Boucher, intitulada: “Por que os antimundialistas ganham terreno”. Antimundialistas, no caso, são aqueles que criticam o modelo neoliberal de globalização e defendem o – tanto famoso quanto mal compreendido – lema “um outro mundo é possível”. O articulista enumera seis razões para tentar explicar a capacidade desses movimentos de seduzir a opinião pública mundial. São elas:

1. Adotam um discurso populista;

2. Surfam sobre o descontentamento de uma maneira oportunista e demagógica;

3. Ocultam todos os benefícios econômicos da abertura de fronteiras, especialmente para os milhões de trabalhadores do Terceiro Mundo cujas fabricações são exportadas para os EUA e a Europa (benefícios exemplificados pela emergência de uma nova burguesia nestes países);

4. Denunciam os compromissos dos partidos nos governos e se arrogam o direito de representar o “interesse geral” melhor do que eles;

5. Bombardeiam a mundialização liberal de críticas sem propor nada como alternativa construtiva e coerente;

6. Fracasso dos partidos sociais-democratas (europeus) em apresentar uma resposta válida aos “excessos da mundialização”.

Essa última razão é apresentada como a principal causa do sucesso do movimento por uma outra globalização. Eurocentrismo pouco é bobagem. Mas o articulista do Le Monde vai mais longe e identifica um “vazio ideológico” da esquerda como elemento co-responsável por este sucesso: “o vazio ideológico não está só na extrema-esquerda mas também na centro-esquerda; a idéia fundamental dos socialistas, a saber, a necessidade de controlar os mercados por uma regulação mundial fracassou na história; as belas idéias de regulação estão em recuo, em todos os níveis”, vaticina Eric le Boucher.

A esperança vem do Brasil Para ele, os movimentos antimundialistas têm um discurso cada vez mais direcionado para a defesa da soberania nacional e do fechamento dos mercados via medidas protecionistas. A esperança, conclui, vem de países que “ganharam com a mundialização”, como seria o caso do Brasil, “que devem adquirir