O carro movido a ar e a reação das irmãs

Arquivado em: Arquivo-CdB
Publicado segunda-feira, 15 de outubro de 2001 as 13:30, por: cdb

Não será fácil. A idéia de implantar veículos inovadores tem dois grandes oponentes, em qualquer país do mundo: a indústria de petróleo – que vive em grande parte dos combustíveis para carros – e as outras indústrias automobilísticas já estabelecidas, que no Brasil (nos meus tempos de editor-assistente da revista Mecânica Popular) eram chamadas de “as quatro irmãs”:Ford, Volks, GM e Fiat.

Claro que hoje podemos incluir dezenas de outros nomes, o que torna a tarefa da pequena MDI quase um filme de ficção científica. A história mostrou que as empresas que dominam o mercado não gostam das pequenas que chegam com idéias revolucionárias: a Tucker, nos Estados Unidos, foi esmagada pela Ford, pela Chrysler e pela GM (conhecidas lá como “as três irmãs”), com a ajuda do governo federal corrupto. No Brasil a Gurgel, que chegou a exportar seus famosos jipões para dezenas de países, não teve fim muito diferente.

Apesar de ser possível afirmar que Tucker era um ótimo inventor e um péssimo administrador, ou que João Gurgel era um ótimo marketeiro e um péssimo político, a verdade é que ambos tinham produtos que foram destruídos por um estranho laço que ligava a indústria automobilística e vários políticos corruptos em postos-chave nos governos. Eu coloquei o verbo no passado? Desculpe.

A história de Tucker pode ser conferida (com algum romance) no filme “Tucker: Um Homem e Seu Sonho”, na locadora. A
história de João Gurgel você não pode conferir, porque o cinema nacional ainda não acordou para sua vida. Eu conheci-o e conheci sua fábrica nos tempos em que tudo ainda ia bem. Durante uma entrevista ele me disse que o governo só tinha olhos para as empresas multinacionais de veículos e que não eram poucos os que gostariam de ver a Gurgel sumir do mapa. E a Gurgel era brasileira.

Até hoje eu escuto os que afirmam que o carro elétrico ainda não é viável economicamente. Bem, Gurgel tinha vários veículos utilitários elétricos vendidos comercialmente para todo o Brasil e outros dez países há duas décadas! Isso mesmo, o Brasil exportava carros elétricos há quase vinte anos… Volta e meia eu ainda vejo um deles rodando por aí. Isso sem falar dos jipes X-12 e Carajás.

Tucker e Gurgel podem não ter sido perfeitos na gestão de suas empresas, mas se alguém acha que as outras indústrias
automobilísticas são perfeitas, é porque não conhece nem um pouco delas. As pequenas empresas que combatem monstros sagrados e a indústria de petróleo, geralmente enfrentam todo tipo de golpes baixos que políticos e empresários de ética duvidosa aplicam.

A propósito: quando uma multinacional diz que vai vir para o país, gerar empregos, os políticos começam uma guerra para que seus estados tenham uma fábrica da empresa, enquanto revistas e jornais disputam a unhas e dentes artigos sobre as tecnologias e os carros.

Quando é que será que as revistas semanais vão dar espaço para a MDI e seus carros movidos a ar? Quando é que algum
governador vai conhecer o projeto? Quando é que a grande imprensa vai resolver descobrir o carro a ar? Aquele que não
anuncia ainda. Aquele cujos grandes anunciantes como a Petrobrás, a Shell, a Esso, a GM, a FORD… bem, não
simpatizam muito.

Boa sorte MDI. Eu gostaria de comprar um carro de vocês.

* Aldo Novak (aldonovak@relatorioalfa.com.br) é editor do Relatório Alfa
www.relatorioalfa.com.br