O canibalismo cultural de Lenine

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Publicado quarta-feira, 11 de dezembro de 2002 as 14:30, por: cdb

“Por favor, me sampleiem, eu quero canibalizar, mas quero que me canibalizem também”, brinca sério Lenine. A brincadeira mostra não
apenas o interesse do cantor em que outros músicos usem suas canções em trabalhos diferentes, como faz referência ao seu novo disco, Falange Canibal. O álbum foi gravado parte no Brasil, parte nos Estados Unidos, na segunda metade do ano passado. Era para ter saído em outubro passado, mas ele optou por ouvir novamente a produção e fazer alguns ajustes.

Lenine segue sua estrada depois de dois discos em parceria – um com Lula Queiroga, em 1983, outro com Marcos Suzano, em 1993 – e dois solos, em 1997 e 1999. O novo álbum, carregado de participações
especiais, flerta sensivelmente com experimentalismos sonoros. Uma das novidades é a de que o disco sairá também em LP. O músico resolveu aproveitar a onda do vinil, que foi redescoberto pelos DJs.

O nome do disco trás de volta o final dos anos 80, quando vários artistas se encontravam em um pequeno bar na Lapa, no Rio. “Nesses
encontros, exercitamos a criação espontânea, a magia do improviso, a
experimentação, o descomprometimento com quaisquer regras, o vigor e o rigor da juventude”, explica o compositor. Esse palco aberto chamava-se “Falange Canibal”, uma espécie de ‘zona franca’ da arte. “Uma terra de ninguém, ocupada por todos”.

Mas por que adotar esse nome no CD? “Por causa do clima de tudo-ao-mesmo-tempo e da atmosfera de intuição, tem a cara das minhas músicas. Encaixou perfeitamente neste trabalho”, explica.

Durante sua trajetória, o pernanbucano-carioca de 43 anos, deixa seu rastro, sua história. “Minhas músicas são autobiográficas”. Um
claro exemplo está na canção Umbigo. “Essa composição funciona como um auto-exorcismo, um mapa para não me permitir o distanciamento das coisas realmente importantes”.

A faixa de abertura, Ecos do Ão, traz enredo de Carlos Rennó, a contribuição techno do alternativo Vulgue Tostói, num clima de neo-
tropicalismo que evoca Caetano Veloso. “Nenhuma língua, latina ou não, possui o som do ão”, diz Lenine”.

Inspiração – O músico conta que só a música Rede foi feita a partir de um inspiração sonora – o próprio som do seu movimento. “Meu
forte sempre foi traduzir os estímulos visuais em canção”, explica o
músico, garantindo que o som da noite é o momento que mais o agrada. “Sou notívago. A música para mim vem pela transpiração e inspiração. Minha geração é mais solitária e mais solidária – com cumplicidade, companherismo – e isso é fundamental para a
criação”, diz Lenine, apontando para Zélia Duncam e Arnanldo Antunes como exemplos.

As participações especiais em Falange Canibal são um destaque à parte. Estão sempre presentes em seus trabalhos parcerias com Bráulio
Tavares, Lula Queiroga, Ivan Santos, Dudu Falcão, não por acaso ativos freqüentadores da antiga ‘Falange’ e eternos cúmplices da criação e do humor. Some-se a esses Sérgio Natureza, Carlos Rennó e Paulo Pinheiro. Está completa a tribo da autoridade das canções do disco.

As gravações contaram ainda com Júnior, do Vulge Tostoi, Marcelo Lobato e Xandão do Rappa, Henrique Portugal e Haroldo Ferreti do
Skank, Kassin e Berna, Plínio Gomes, Velha Guarda da Mangueira, o elenco de “Cambaio”, Frejat, Eumir Deodato e Zé Miguel Wisnik. Além da contribuição de músicos estrangeiros, como Alexander Cheparukhin do Farlanders, Ani Difranco, Will e Doug do Living Color, Caude Sicre e Ange B. do Fabulous Trobadors, Régis Gizavo, Steve Turre, Yerba Buena e Andres Levin.