Nova geopolítica

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Publicado segunda-feira, 9 de junho de 2003 as 23:30, por: cdb

Diz-se que quando os homens toleram que as mulheres invadam uma profissão, seria porque esta perdeu importância. O mesmo acontece com os ramos da economia: quando o centro transfere um setor para a periferia do capitalismo, é porque tecnologicamente deixou de ser de ponta.

Quando os ricos aceitam pobres nas suas reuniões, é porque não vão decidir nada de importante nelas. Foi assim na reunião do G-8 em Evian. À falta de uma pauta importante a discutir e decidir, depois que a nova doutrina estratégica dos Estados Unidos exclui qualquer forma de multilateralismo no mundo, os governantes dos países centrais do capitalismo resolveram convidar a governantes de países da periferia para sua festa esvaziada.

O presidente dos EUA esteve lá durante 24 horas, um tempo menor ao que levou viajando no seu avião presidencial até o Oriente Médio e retornando aos EUA, só para dizer que foi. Não é de se estranhar, portanto, que nem sequer referência às propostas de Lula seja feita no documento final, que ainda guarda certo ar protocolar e não reserva lugar para “bravatas”, como a taxação da indústria bélica – da qual os grandes patrões estavam todos presentes – para fins de políticas sociais.

Mas, apesar disso tudo, a geografia política do mundo vai mudando. À unipolaridade norte-americana, governos da semiperiferia do sistema – na ausência de respostas consistentes por parte de governos do centro – se articulam para organizar e dar expressão política ao Sul do mundo, excluído dos três megamercados mundiais.

A reunião dos primeiros mandatários de Brasil, África do Sul e Índia é a notícia mais importante na nova configuração política mundial desde o fim da multipolaridade. Porque ela pode representar a expressão dos 85% da população mundial, situada na periferia do sistema, que divide pessimamente 15% da renda mundial, e assim começar a reverter um desequilíbrio de poder no mundo a favor da grande maioria da humanidade.

Da mesma forma, a reunião do Mercosul em Assunção aponta na mesma direção. Resolvida positivamente a eleição na Argentina, estão dadas as condições para a retomada, o fortalecimento e a expansão do Mercosul, conforme as propostas do governo brasileiro, colocando-o efetivamente no lugar privilegiado em relação à Alca.

A reunião da OMC em Cancún, em setembro deste ano, por sua vez, está esvaziada, pelo clima geral mundial – bélico e recessivo -, revelando como os tempos de crise não são propícios para avançar no livre-comércio. Resta aos países do Sul organizar seus espaços protegidos e integrados para enfrentar uma recessão prolongada e profunda do capitalismo mundial e a “guerra infinita” do governo Bush.

O mundo já é outro, ao final da primeira década de unilateralismo. A superioridade militar dos EUA não é suficiente para impor sua hegemonia sobre um sistema mundial diversificado e ferido por políticas liberais e de guerra, que abrem um espaço para lideranças alternativas na construção de um mundo multipolar.

Emir Sader, professor da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), é coordenador do Laboratório de Políticas Públicas da Uerj e autor, entre outros, de “Século XX – Uma biografia não autorizada” (Editora Fundação Perseu Abramo) e “Contraversões (com Frei Betto, Editora Boitempo).