Nobel de Cravo e Canela

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Publicado terça-feira, 10 de dezembro de 2002 as 18:29, por: cdb

A dúvida ainda paira no ar que entra nos salões da Academia Brasileira de Letras, no Centro do Rio de Janeiro, quando, nas tardes de quinta-feira, os imortais se reúnem à mesa para o chá. O saudoso Jorge Amado não ganhou o Prêmio Nobel de Literatura, mas alguns de seus colegas, escritores brasileiros e acadêmicos, trataram de corrigir a injustiça e concederam, informalmente, o prêmio àquele que foi um dos maiores escritores de relevância internacional do século XX. O jornalista e ex-presidente da ABL, Arnaldo Niskier, é claro: Amado foi para a literatura o que Pelé foi para o futebol mundial. “Amado foi o Rei da Literatura. O prêmio Nobel é dele e ponto”, afirmou.

O desabafo tem seus motivos. Há 18 anos consecutivos, a ABL indica o nome do escritor baiano à Academia Sueca para concorrer ao prêmio. “Há uma política misteriosa neste processo. São meandros que não conseguimos entender. É uma grande frustração”, argumentou Niskier, que revelou ter viajado, em certa ocasião, para conhecer a “casa do Nobel” e divulgar a importância da obra do brasileiro.
Seu comentário foi endossado pelos colegas Carlos Heitor Cony e Lygia Fagundes Telles. Em seus argumentos, eles encontraram duas explicações: Jorge Amado não ganhou o Nobel por escrever em português e ser demasiadamente popular.

Os imortais acreditam que, apesar de ser traduzido em mais de 40 países, o fato de redigir originalmente em português foi um dos pontos negativos na avaliação dos críticos. “A língua devia ser mais reconhecida por eles. Afinal, são mais de 210 milhões de pessoas que falam português em todo o mundo”, lembra Niskier. “A Academia Sueca gosta de escritores discretos. O Jorge era popular, e vendeu muito por isso”, criticou Cony. Lygia, por sua vez, definiu as virtudes de Amado que o privaram da conquista. “Ele escrevia seu povo, a Bahia, o Brasil, a família, com liberdade, com paixão, e vendeu muito em todo o mundo. Acho que a Academia não gosta disso, por ironia do destino”.

Para o economista e também imortal Celso Furtado, Jorge Amado não precisava ganhar o Nobel porque o reconhecimento internacional de sua obra já lhe concedera a maior satisfação que um escritor pode ter. “O Nobel é uma criação simbólica, é uma espécie de mito moderno. Ele não precisava disso porque morreu satisfeito com o sucesso de sua obra”, disse Furtado. A ABL – representante maior da literatura brasileira no exterior – parece ainda estar de luto, mas convive com uma dúvida: quem será o substituto de Jorge Amado na indicação ao Nobel? Celso Furtado, apesar de não dar importância à escolha, acredita que o Brasil não carece de bons nomes. Mas Niskier foi direto: “Ainda é cedo para definir, mas dificilmente aparecerá um novo Jorge Amado”.

Lembranças – Ninguém conhece um famoso escritor chamado João Verissimo. Jorge Amado conhecia. E Luis Fernando, o legítimo, explica. “Quando eu era criança, o Jorge se escondeu aqui em casa fugindo da polícia política. Ele me viu e disse: você não tem cara de Luis Fernando, tem cara de João. E ele sempre me chamou de João”, lembrou ao descrever o primeiro encontro. Na época, Jorge Amado
pediu ajuda ao romancista Erico Verissimo, pai de Luis Fernando.

A lamentação da morte é aceitável, mas a tristeza ficou fora do vocabulário dos escritores que lembram momentos de convívio com o baiano. “A nossa relação foi muito estranha. A gente não podia se olhar porque um ria da cara do outro. Talvez porque nós compreendêssemos o sentido de tudo e demonstrávamos o nosso lado moleque sempre. Quando eu o encontrei pela primeira vez, parecia
que nós já nos conhecíamos”, brinca Cony.