Nem unidos, nem dominados

Arquivado em: Arquivo-CdB
Publicado quarta-feira, 3 de maio de 2006 as 16:09, por: cdb

A unidade latino-americana parece ser sonho irrealizável, desde que ela foi tentada por Simón Bolívar. O primeiro percalço surgiu quando o Libertador esteve em Londres, em busca de apoio na guerra contra a Espanha. Naquele momento, a submissão política a Madri – que se encontrava em péssima situação histórica, com a capitulação diante de Napoleão – foi substituída pela submissão econômica (e, portanto, política) à Inglaterra. Na esteira dos maus contratos celebrados com os banqueiros, e sob os auspícios do governo de Sua Majestade, outros países do continente, em luta para a afirmação da independência, também se endividaram na City. A vez do Brasil chegaria formalmente com a independência, embora já estivéssemos, na condição de colônia, amarrados aos banqueiros ingleses. Mas, mesmo com a declaração da independência de alguns países, para os efeitos políticos internacionais, não passávamos de hipóteses de soberania. Algumas mais sólidas, como era o caso do Brasil e do México, outras mais frágeis, e esse era o caso das colônias centro-americanas e do Caribe.

Emergindo como potência mundial, já no século 19, os norte-americanos passaram a olhar para o Brasil. Em carta ao general La Fayette, em 1818, Jefferson se refere à bamba governabilidade das ex-colônias espanholas, prenunciando, com sua reconhecida lucidez, que o continente latino-americano teria dificuldades em governar-se, entregue a generais aventureiros e a outros tipos de caudilhos. Propunha – com boas intenções, aparentemente, mas de qualquer forma, com a arrogância da superioridade – que se organizasse um comitê de potências européias, com a presença, é claro, dos Estados Unidos, a fim de ir, paulatinamente, preparando as colônias ibéricas, sob a tutela da Espanha, à plena autonomia. O Brasil, ele ponderava, era outra coisa, porque seu povo era tão capaz e tão sábio quanto o povo português – o que o fazia apto para o exercício da independência.

Depois tivemos a tentativa da União Pan-americana, sob a tutela de Washington, que recebeu o entusiasmado apoio de Joaquim Nabuco, um filo-americano de primeira hora. Essa chamada união dos Estados Americanos, hoje transformada na OEA, recebeu de Jacobo Arbenz, a boa definição: trata-se de um acordo entre o tubarão e as sardinhas.

Isso nos leva a examinar, com cautela redobrada, os últimos fatos em nosso continente. Por que os chamados governos de esquerda sul-americanos (deixemos de lado os outros, pelo menos por enquanto) não podem entender-se em projeto cauteloso e modesto, que conduza a acordos de interesse mútuo? O Brasil dos generais tem um pouco de culpa nisso. Herdamos, dos portugueses, a secular desconfiança contra os espanhóis e, em conseqüência, contra os hispano-americanos. Como os argentinos são os mais fortes de nossos vizinhos, toda a estratégia político-militar do Brasil se voltou para o Sul. No governo militar, essa preocupação geopolítica nos fez abandonar o melhor projeto para o represamento do Paraná, o do engenheiro Figueiredo Ferraz, que reduzia a nossa dependência com relação ao Paraguai, e nos aprisionou a um contrato historicamente indesejável. Itaipu nos tornou xifópagos ao país vizinho, com todos os percalços históricos que isso representa. E estamos vendo como o Paraguai se tornou cabeça de ponte para os Estados Unidos. O Uruguai sempre oscila entre a influência argentina e a brasileira, desde a famosa marcha de Lavalleja e seus Trinta e Três, episódio que fazemos questão de esquecer, e que consolidou, em 1825, a independência formal do País. Agora, os uruguaios (acusados, por historiadores paraguaios, de haver insuflado a Tríplice Aliança que os dizimou na Guerra do século 19), saem do Mercosul. Interesses são interesses.

A Guerra do Paraguai – que nos trouxe seqüelas desagradáveis – foi imposta pelos sonhos de grandeza de Lopez – que nos fechou a navegação pelo rio Paraguai, invadiu o território brasileiro, e ocupou parte do Mato Grosso por quase três anos. Sob o coma