Nem soft landing, nem recessão: ‘muddling through’

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Publicado terça-feira, 23 de outubro de 2001 as 16:23, por: cdb

O cenário econômico internacional tem sido marcado por um número expressivo de anúncios de demissões em alguns dos maiores grupos econômicos globais, assim como pela divulgação de frustração de metas de vendas, em especial entre as empresas norte-americanas. Ganham peso os indicadores de desaquecimento mundial, na medida em que prossegue a desaceleração dos EUA, apesar das reduções de juros. O Japão volta a dar sinais de que não consegue reverter o processo deflacionário nem reativar a economia e mesmo a União Européia reduz suas taxas de juros, pois seus mercados também perdem dinamismo. A tendência nos próximos meses é de que a interdependência entre os grandes mercados mundiais produza uma redução maior que a esperada na taxa de crescimento da economia mundial. A palavra recessão tem sido repetida à exaustão.

Aliás, nos EUA, o crescimento já no segundo trimestre foi de 0,2%, o quarto mês consecutivo com expansão abaixo de 2%. Foi a primeira vez que isso ocorre na economia norte-americana desde o início dos registros em 1946.

Os setores mais atingidos são os de microeletrônica, tecnologia da
informação e mídia, em escala internacional, com o anúncio de demissões em massa por grandes corporações globais. Especialmente no Japão, uma economia que já vinha se debatendo há anos contra as tendências deflacionistas e estagnacionistas, o efeito da recessão no mercado de microchips eletrônicos é cada vez mais agudo.

O desaquecimento da economia norte-americana é também fator de depressão em outras plataformas exportadoras do Sudeste Asiático. Ainda assim, os cortes sucessivos de juros, como se observa nos Estados Unidos, funcionam mais como amortecedores da queda e menos como fatores de reversão das tendências recessivas.

As intensas perdas nas Bolsas de Valores e a incerteza quanto à duração e o alcance da ação militar desencadeada pelo governo norte-americano e seus aliados continuarão dominando as expectativas nas próximas semanas. Ao mesmo tempo, há uma percepção crescente de que uma conflagração muito ampla traria ainda mais danos ao desempenho das economias. O temor de uma escalada do terror levou autoridades de vários países, em especial as européias, a relativizar seu apoio aos EUA.

Parece entretanto cedo ainda para formar uma avaliação mais consistente do cenário internacional, a ponto de continuar em tela a hipótese de que, já no primeiro semestre de 2002, os EUA estariam iniciando uma fase de recuperação da economia, deixando para trás os acontecimentos mais recentes como episódios de “overshooting” de expectativas pessimistas.

Na prática, as taxas de juros já são zero nas duas maiores economias do
mundo. Já são nove cortes sucessivos da taxa de juros nos Estados Unidos
somente neste ano. É a taxa mais baixa em quase 40 anos. Descontada a
inflação, a taxa chegou a zero. No Japão, a taxa é nominalmente nula (a
queda na produção industrial, desde o ano passado, é da ordem de 12%).
Somados aos pacotes fiscais e aos gastos militares, a política monetária
finalmente começaria a fazer efeito no primeiro semestre de 2002. Seria
portanto uma crise profunda e rápida, seguida de uma recuperação igualmente rápida e mais intensa.

Nem soft landing, nem recessão: a economia mundial atravessaria de 6 meses a um ano de “muddling through” ( “empurrar com a barriga”), retomando o crescimento com base em novas plataformas tecnológicas, num grau de concentração de capitais sem precedentes e um novo contingente de
miseráveis, falidos e desempregados. Nada de novo, apenas a velha máquina
capitalista funcionando segundo ciclos que desde o século 19 são analisados pelos economistas.

Nesse cenário, é totalmente insensata a nova pregação do presidente do Banco Mundial, James Wolfensohn. Em artigo reproduzido pela Folha de S. Paulo (9/10/2001), ele imagina que o mundo, diante do terror e da miséria, estaria finalmente abrindo os olhos para uma nova fase de cooperação e unidade em favor de políticas de desenvolvimen