Negociações emperram e conflitos seguem na Colômbia

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Publicado sexta-feira, 21 de setembro de 2001 as 16:47, por: cdb

Em uma cabana sem paredes, com telhado de palha, onde está uma mesa de plástico branco e uma garrafa térmica com água gelada, quatro guerrilheiros conversam com seis funcionários do governo colombiano.

Os rebeldes, membros das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), usam uniformes com estampa camuflada e trazem fuzis automáticos AK-47 pendurados ao ombro. Os civis usam calças cáqui, e trazem canetas esferográficas nos bolsos de suas camisas pólo coloridas.

Por dois anos e meio, as equipes de negociação vem se encontrando nesta pequena vila, em uma zona controlada pelos rebeldes, ao sul da Colômbia, em busca de uma difícil solução que coloque um fim às quase quatro décadas de guerra civil.

“A atmosfera é muito amigável e informal”, afirma Alfonso Lopez Caballero, que trabalhou como negociador do governo até o mês passado. “Há muitas piadas e camaradagem”.

No entanto, apenas algumas centenas de metros da cabana, instrutores militares conduzem uma dúzia de recrutas novatos para um curso de guerra na selva. Enquanto os adolescentes sem camisa saltam sobre troncos de árvores e marcham em uníssono através da floresta, eles cantam: “Nós somos guerrilheiros, somos filhos do povo, não gostamos nem um pouco do governo malicioso”.

Como uma tela de televisão dividida, os dois fatos ocorridos simultaneamente em Los Pozos traduzem imagens diferentes do futuro da Colômbia: uma guerra ainda mais sangrenta e prolongada, uma paz conquistada após árduas negociações ou alguma combinação confusa dessas duas alternativas.

A nação atingiu uma encruzilhada crucial, onde milhares de vidas estão na berlinda. Mas, embora a estrutura do processo de paz esteja montada, não se sabe se os dois lados vão saber aproveitar a oportunidade.

O presidente Andres Pastrana fez da paz a sua prioridade máxima. Mas os analistas dizem que o processo tem sido tão frustrante e os resultados tão modestos que muitos colombianos perderam a fé nas negociações.

E um dos maiores agravantes para a situação é o fato de que, no mesmo momento em que os representantes falam de paz, a guerra esteja sendo travada. Sempre que as Farc atacam uma cidade ou seqüestram civis, colombianos revoltados exigem que haja uma resposta militar e se perguntam porque o governo se preocupa com negociações.

“Nunca vi gente tão cansada de negociações de paz”, diz Rafael Pardo, um ex-ministro da Defesa da Colômbia.

Embora as conversações tenham sido iniciadas em janeiro de 1999, os dois lados ainda têm que chegar a um acordo quanto aos 12 pontos da agenda de negociações.

Vários especialistas afirmam que facções internas da Farc e até mesmo o governo acreditam que têm mais a ganhar no campo de batalha do que na mesa de negociações.

Portanto, as condições para conversações bem sucedidas podem ainda não existir.

Com o auxílio de US$ 1,3 bilhão (R$ 3,25) dos Estados Unidos, a administração Pastrana está modernizando as forças armadas colombianas. Após uma série de derrotas militares nos anos 90, o exército está se saindo melhor nas lutas contra os guerrilheiros, ao mesmo tempo em que grupos paramilitares ilegais de extrema direita estão anulando muitas das vitórias das Farc no interior do país.

Os guerrilheiros falam em dobrar o tamanho dos seus efetivos, em reforçar as suas milícias urbanas e em construir a base para um levante generalizado.

“A verdadeira guerra ainda está por vir”, diz Alfredo Rangel, um analista político e conselheiro do Ministério da Defesa da Colômbia. “Ambos os lados estão concentrando forças para a execução de uma grande manobra militar”.

Ainda assim, a maioria dos especialistas acredita que nem o governo nem os guerrilheiros podem alcançar uma vitória definitiva nos próximos anos, e que a saída mais inteligente para os dois lados seria chegar a um acordo de paz o mais rapidamente possível.

Além disso, esses especialistas afirmam que um acordo com as Farc poderia levar a desmobilização dos grupos paramilita