Não à extradição de Cesare Battisti!

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Publicado quarta-feira, 29 de dezembro de 2010 as 17:23, por: cdb
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A escritora francesa Fred Vargas foi quem mais lutou pela liberdade de Cesare Battisti.

Foi com esse título, no site Direto da Redação, que publiquei meu primeiro artigo em favor do companheiro Cesare Battisti, hoje agraciado pelo presidente Lula, e que poderá viver, enfim, no Brasil, depois de quase dois anos de prisão, mesmo depois da decisão do ex-ministro Tarso Genro.
Desnecessário falar de minha alegria de combatente, já que, no início, logo depois da prisão de Battisti no Rio de Janeiro, grande parte da esquerda não se decidia a apoiar Cesare Battisti. em consequência de uma insidiosa campanha movida pela revista Carta Capital.

Lembro-me do duelo com Mino Carta, redistribuído pela mídia alternativa. Dos artigos no Brasil de Fato, no Observatório da Imprensa, Correio do Brasil e de tantos outros, reproduzidos na própria França, onde a grande defensora de Battisti era a escritora Fred Vargas, muitas vezes no Brasil para contratar advogados, encontrar-se com juristas, políticos, ministros, em busca da libertação de Battisti.
A campanha por Battisti teve, a seguir, como seus grandes defensores Celso Lungaretti, ex-combatente contra a ditadura, ex-preso político, o combativo articulista Laerte Braga, o jurista Carlos Lungarzo, os políticos Eduardo Suplicy e Fernando Gabeira. E tantos outros que foram se juntando, se mobilizando, se reunindo diante do STF para protestar contra o ministro Cesar Peluzo e Gilmar Mendes, que quase provocaram uma crise institucional ao rejeitarem uma decisão do próprio ministro da Justiça Tarso Genro, mantendo preso, ilegalmente, diga-se de passagem, o italiano Cesare Battisti.

Lembro-me também das ofensas do governo e de políticos italianos contra o Brasil e contra Tarso Genro, vindas justamente do desmoralizado governo de Silvio Berlusconi, mas aceitas pela imprensa brasileira. Entendemos a paciência do presidente Lula, pois essa mesma imprensa comprometida teria certamente utilizado a não extradição de Battisti como argumento contra a eleição de Dilma Rousseff.

Pena que muitos brasileiros sem acesso ao falso processo de Cesare na Itália, tenham criado a idéia corroborada pela imprensa, de que se tratava de um culpado, quando na verdade era um foragido vítima de perseguição política. A verdade pouco a pouco virá à tona, e ajudará Battisti a se integrar no Brasil, escrever novos livros e se juntar aos combatentes pelos direitos humanos se tornando um dos nosso valores intelectuais.

Fiquemos, porém, alertas para que Cesare Battisti não seja vítima de atentado ou vingança por parte de políticos italianos frustrados com a decisão brasileira. Lula não repetiu o erro de Getúlio, que cedeu Olga Benário Prestes aos pedidos da Alemanha nazista. O Brasil se afirma, com essa decisão política de Lula, como um país independente, sem medo de pressões e ameaças, mesmo porque já se tornou uma potência internacional.

Bemvindo Cesare Battisti ao convívio de nós brasileiros, de todos nós que lutamos contra os diversos tipos de opressão, de controle, de injustiças e de tramas judiciárias contra os lutadores pela liberdade. Ontem, prisioneiro, ameaçado de extradição, hoje Battisti é o atestado de  nossa maioridade política e se torna uma marco na nossa história, no epílogo de uma luta entre um judiciário brasileiro desejoso de satisfazer a injustiça italiana contra um executivo, que não se dobrou e optou pela justiça e pelos direitos humanos. É o fecho de ouro do governo Lula.

Espero ter ainda a oportunidade, um dia desses no Brasil, de me encontrar com Battisti para lhe dar o abraço de boas-vindas como homem livre no território brasileiro.

Rui Martins

PS. reproduzo meu primeiro texto em favor de Battisti, no Direto da Redação, e, a seguir, minha resposta a Mino Carta.

Não à extradição de Cesare Battisti

Berna (Suíça) – 19 de março de 2007. Existem momentos em que uma decisão da Justiça brasileira pode transmitir ao mundo uma mensagem de serenidade, equilíbrio e ponderação. Esta coluna hoje quer ter mais uma função de manifesto para propor às personalidades brasileiras, muitas das quais viveram o exílio político, uma mobilização para pedir ao nosso Supremo Tribunal a rejeição do pedido de extradição do antigo militante da extrema-esquerda Cesare Battisti, preso no Rio de Janeiro.

Condenado à revelia à prisão perpétua, na Itália, por quatro crimes dos quais nega ser o autor, Cesare Battisti tinha se beneficiado, na França, de uma decisão do presidente Mitterrand contrária à extradição de antigos militantes revolucionários italianos. Julgando-se em lugar seguro, depois de ter fugido para o México, onde sobreviveu com pequenos empregos, Battisti começou ali a escrever livros policiais, talvez obcecado pela sua própria história de foragido – uma espécie de Jean Valjean italiano perseguido todo tempo por um obsessivo Javert.

Para ter com o que sustentar a esposa e as duas filhas, se tornou zelador de um prédio em Paris. Zelador-escritor, o antigo militante italiano do PAC, Proletários Armados pelo Comunismo, esperava viver na França o resto de sua vida.

Entretanto, o fim do governo Mitterrand, pos fim à sua anistia política. Um novo pedido de extradição pela Itália foi acatado pelo governo francês de Jacques Chirac. Não querendo passar o resto da vida na prisão, Cesare Battisti retomou sua vida de foragido. Na sua defesa, no julgamento da extradição, Battisti, além de negar os crimes, destacou a desumanidade da pena – “o que será de minha mulher e minhas filhas, que não poderei mais ver e nem sustentar ? Na verdade, serão elas também condenadas comigo”.

Por que o Brasil não deve extraditar Cesare Battisti ?

Além da questão humanitária, pois os crimes dos quais é acusado ocorridos no começo dos anos 70 normalmente já estariam prescritos, os crimes dos quais é acusado fazem parte de uma outra época da história política européia – o das Brigadas Vermelhas, cujas manifestações ocorreram tanto na Alemanha como na Itália.

Essa página política foi encerrada e revista, tanto os envolvidos em atos de violência como os ideólogos se reconverteram em partidários de uma lenta mas pacífica evolução social pelo mecanismo democrático.

Todos nós viramos as páginas. O Cesare Battisti de hoje nada tem a ver com o dos anos 70. Além disso, o Brasil anistiou todos quantos participaram dessa época, durante a ditadura militar. Uma anistia que beneficou também os profissionais da tortura, mesmo se não eram movidos por nenhum ideal de mudar o mundo e justiça social. Fazer exceção a esse princípio já adotado no nosso País seria um contrasenso e uma injustiça.

Mesmo porque o governo brasileiro de hoje tem muitos militantes desse passado, cuja vida não é de foragidos. Se a Justiça brasileira quiser aplicar o tratado de extradição com a Itália, caberá ao presidente Lula, com seu senso de equilíbrio, já demonstrado, anistiar Cesare Battisti e permitir-lhe viver no nosso país com sua família. Será um decisão humana.

Fora isso, deve-se tomar em conta que a prisão de Cesare Battisti foi obra do atual candidato à presidência da França, Nicolas Sarkozy, cujas declarações contra os estrangeiros e criação de um ministério da Identidade Nacional fazem lembrar perigosos slogans dos anos 30. Sarkozy com seu golpe eleitoral, põe em dúvida a própria honorabilidade da França, pois o presidente Mitterrand tinha prometido, em nome da França, encerrar esse capítulo.

O Brasil não deve ser cúmplice de uma jogada eleitoral da direita dura francesa que espera ganhar votos entre o eleitorado da extrema-direita com a prisão do antigo revolucionário.

Mino Carta, Battisti e a Itália de Dante
Quarta-feira, 06/03/2009 – 11:14
Por Rui Martins – Suíça
Entre Mino Carta e o escritor Antonio Tabucchi, entre Berlusconi e Nanni Moretti, fico com Tabucchi e Moretti, que são a verdadeira Itália de Dante.

Estou com Mino Carta quando, se tornando exceção na imprensa brasileira, elogia o nosso “sapão barbudo”, mas lamento que, depois de observar um retiro infelizmente não inspirador, tenha voltado a bater na mesma tecla e a malhar o italiano Cesare Battisti, ainda preso apesar de uma decisão do ministro da Justiça.

Não vou ser tão contundente quanto o ex-preso político Celso Lungaretti, mas comparar Battisti com Bin Ladin é um tanto excessivo e não sei se fazer dupla com Walter Maierovitch é coisa recomendável para alguém com o passado de Mino.

Até hoje não entendi porque a Carta Capital se lançou numa cruzada, ombro a ombro com a imprensa golpista dos anos de chumbo, contra Battisti e, pior de tudo, tornando-se cúmplice da Itália de hoje, onde um primeiro-ministro fanfarrão anda de braço dado com fascistas e neofascistas.

Por que tanto empenho de Mino em querer oferecer à Itália de Berlusconi a cabeça de Battisti? Simples afinidade italiana? Não acredito, porque felizmente a Itália não são só as milícias ressurgidas que caçam hoje imigrantes nas ruas, revivendo pouco a pouco o pesadelo dos anos 30 e a era mussoliniana, mas na Itália existem ainda pessoas como o cineasta Nanni Moretti e o escritor Antonio Tabucchi.

Nanni Moretti faz frente, há muito tempo, ao dono da mídia italiana e seu filme O Caimão é a história do antigo tocador de cabaré que virou crooner italiano, cujo machismo, gafes e desrespeitos dão Ibope numa Itália num acesso de nostalgia ao tempo das camisas negras, mas do qual logo acordará suando com a atual crise. A hora da verdade parece ter vindo com a ex-menor Noemi, razão do pedido de divórcio da ex-miss, esposa do fanfarrão, que pensava tudo lhe ser permitido, esquecendo-se de que o Vaticano próximo é o guardião da moral de fachada italiana.

Mas não vamos pegar o caminho do sensacionalismo people, do quem comeu quem e se podia comer por ser menor. Vamos ficar no político. No apoio de Berlusconi ao fascista do norte, Humberto Bosi, e ao outro fascista da capital romana, Gianni Alemanno, seu novo prefeito que derrotou o candidato da esquerda Walter Veltroni.

Na euforia da vitória de Veltroni, enquanto o povo gritava vivas ao novo Duce (em homenagem a Mussolini) e reproduzia a saudação fascista, ligeiramente diferente da dos nazistas, o novo Cesar da televisão italiana que controla o país, dizia – Nós somos a nova Falange!

Para quem não sabe, a Falange era o partido fascista espanhol de Franco, que mergulhou a Espanha numa longa ditadura quase em parceria com a ditadura de Salazar. Que bela companhia para os que hoje tanto se empenham numa condenação de Cesare Battisti.
E é essa gente que tem feito pressão sobre o Brasil, que tem atacado e tentado desmoralizar nosso ministro da Justiça Tarso Genro, e que espera uma decisão do presidente do STF, Gilmar Mendes, autorizando a extradição de Battisti, no intuito de provocar uma crise institucional dentro do Brasil.

O escritor Antonio Tabucchi, um especialista em Fernando Pessoa que fala o português, está sendo processado pelo presidente da Camara italiana dos Deputados por ter denunciado “a inquietante corrupção das regras democráticas” e por ter defendido um jornalista do L´Unita, Marco Travaglio, também processado por ter ousado ser contra o regime Berlusconi. Tabucchi não é um novato na defesa do Estado de direito e da liberdade democrática. É dele um excelente livro, transformado em filme com Marcelo Mastroiani, no papel principal – Pereira Pretende, cuja ação se desenvolve no clima do salazarismo português.
Que Mino Carta e sua revista abandonem os textos tendenciosos e indignos de Walter Maierovitch contra Battisti, que poderão levá-los à uma aparente cumplicidade com a Itália de Berlusconi. Com que direito o governo de Berlusconi se nega a receber o credenciamento do novo embaixador brasileiro em Roma, querendo fazer afronta ao ministro Genro, a pretexto de aguardar o julgamento do STF ?

É hora de deputados, senadores e juízes do Supremo dizerem Basta a essas pressões à nossa soberania, por um governo fanfarrão e saudosista dos tempos do fascismo. Vamos escolher a Itália de Dante, de Nanni Moretti e de Antonio Tabucchi.

Rui Martins, jornalista e escritor, exilado durante a ditadura brasileira, correspondente em Genebra.

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