Museus de NY encontram dificuldade para expor obras após atentados

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Publicado sábado, 8 de março de 2003 as 09:29, por: cdb

Um é pouco. Dois é bom? Duas exposições em cartaz em Nova York tentam demonstrar que sim – também duplamente.

“Manet/Velázquez: O Gosto Francês pela Pintura Espanhola”, no Metropolitan Museum, e “Matisse/Picasso”, no MoMa (Museu de Arte Moderna) em Queens, têm forte apelo e foram marcadas pelas atuais dificuldades em trazer obras valiosas para os EUA depois dos atentados de 11 de setembro de 2001.

A crítica em torno das mostras, no entanto, não tem recompensado até aqui o esforço dos dois principais museus de Nova York. O objetivo das duas exposições é revelar aspectos comuns e a influência entre os quatro pintores, os franceses Manet e Matisse e os espanhóis Velázquez e Picasso.

Embora não tenha havido contato em vida entre Édouard Manet (1832-1883) e Diego Velázquez (1599-1660), o francês de fato colheu inspiração em obras do espanhol.

O acaso, como sempre -desta vez uma reação negativa a apresentação de seu quadro “Olympia”, no Salão de Paris-, teria levado Manet em 1865 a “refugiar-se” por um período na Espanha, onde visitou cidades como Madri e Toledo.

A viagem ao país vizinho foi planejada rapidamente e deveria durar mais de um mês. Manet voltou em duas semanas. “As cidades são admiráveis, mas que comida horrível tem esse país”, escreveu pouco antes de cruzar a fronteira de volta para a França.

A despeito do título, a exposição no Metropolitan, aberta esta semana e que vai até 8 de junho, apresenta 150 telas de vários outros pintores da chamada “era dourada” espanhola (como Goya e El Greco) e obras-primas de artistas franceses do século 19 influenciados por elas, como Delacroix, Degas e o próprio Manet.

Em meio a tantos nomes e variações, o resultado do conjunto é que praticamente não há conjunto -apenas trabalhos admiráveis difíceis de comparar.

Já a simbiose entre Henri Matisse (1869-1954) e Pablo Picasso (1882-1973) em cartaz no MoMa até 19 de maio foi pessoal, durou quase 50 anos e esteve marcada por ciúmes e arroubos de inveja. O efeito da exposição é o contrário ao que se pode ver em “Manet/Velázquez”.

Organizada por um time de seis historiadores da arte, a mostra contém 130 telas, desenhos e esculturas. A disposição dos trabalhos, que tende a ser comparativa, é bastante reveladora em alguns casos, mas força a mão em muitos outros.

O expediente funciona bastante bem, por exemplo, na comparação entre “Os Acrobatas” (1952), de Matisse , e “O Acrobata” (1930), de Picasso. As semelhanças são gritantes.

A maior parte das outras comparações deixa a desejar. É forçoso que o visitante use a própria imaginação. Mas a influência é conhecida. Foi Matisse, por exemplo, quem introduziu Picasso às formas africanas que dominaram parte da produção do catalão a partir de 1907.

A dificuldade na montagem das duas mostras é um capítulo à parte. Desde os atentados de 11 de setembro de 2001, que atingiram em cheio Manhattan, explodiram também os valores de seguros exigidos por museus e colecionadores particulares dentro e fora dos EUA para empréstimo de obras a salas em Nova York e Washington.

O governo americano tem um programa público de seguros que oferece proteção até o limite de US$ 5 bilhões ao ano a obras expostas em museus no país. Depois do 11 de setembro, a demanda cresceu tanto que a verba para 2003 já secou com as exposições programadas apenas para o primeiro semestre deste ano.

O catálogo da exposição “Matisse/Picasso”, por exemplo, teve de ser refeito depois que o proprietário da tela, um americano dono de cassinos, recusou-se, na última hora, a emprestar o quadro -mesmo estando garantido por uma apólice. “O Sonho” (1932), que retrata a amante de Picasso Marie-Thérèse, repousa neste momento em alguma parede de Las Vegas.