Mundo árabe se mobiliza para a luta

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Publicado terça-feira, 25 de março de 2003 as 22:01, por: cdb

A invasão do território iraquiano provocou uma onda de comoção no mundo árabe. Voluntários egípcios, líbios, libaneses e até rivais históricos, como os iranianos, estão viajando ao Iraque para lutar contra as tropas da coalisão anglo-americana. Segundo informações publicadas pelo jornal libanês Al Zaman, cerca de 1,4 mil egípcios teriam conseguido visto de entrada no Iraque, desde que a guerra começou.

Funcionários da embaixada do Iraque no Cairo negaram a informação mas, em apenas uma hora, correspondentes estrangeiros encontraram egípcios na porta da embaixada que disseram ter conseguido o visto para entrar no Iraque, com o único objetivo de participar da guerra.

Na Jordânia, que faz fronteira com o Iraque, a guerra está levando exilados iraquianos, que escaparam justamente do regime de Saddam Hussein, a voltar para defender o país.

A Jihad Islâmica

A agência de notícias Associated Press divulgou na noite desta terça-feira que o porta-voz do consulado do Iraque na Jordânia, Jawad al-Ali, anunciou a emissão de 3 mil vistos temporários para exilados iraquianos nos últimos três dias.

O porta-voz teria dito, ainda, que todos reafirmaram a intenção de lutar ao lado do povo iraquiano. O empresário egípcio Abu Hassassin, de 42 anos, por exemplo, resolveu deixar a família no Cairo para lutar no Iraque. Ele explica que o sentimento de “irmandade árabe muçulmana” explica a decisão.

– Eu quero lutar contra os invasores em defesa dos meus irmãos iraquianos. A Jihad é mais importante do que a minha família. Essa guerra é um ataque contra nossa terra, nossa religião. Vou defender minha dignidade, a dignidade do povo árabe – disse o empresário, após conseguir o visto na embaixada do Iraque no Cairo.

Um estudante de 17 anos também havia conseguido o visto e disse estar disposto a morrer defendendo o Iraque.

– Os muçulmanos têm a obrigação de lutar. Não tenho medo de morrer. Se não fizermos nada, seremos os próximos – disse o jovem, que pediu para não ser identificado por temer a reação do governo egípcio.

Abismo

A tropa de voluntários egípcios que está se formando desde que a guerra começou é um reflexo do abismo entre o governo e população. De um lado, o presidente Hosni Mubarak tenta manter seus interesses de aliado estratégico de Washington na região.

De outro, a população protesta diariamente nas ruas contra a guerra e as políticas americanas para o Oriente Médio. O carpinteiro Tamer Abdel Nasr, de 20 anos, disse querer lutar ao lado dos iraquianos, mas temer a reação do governo.

“Eu quero lutar, mas o governo proíbe, não quer que egípcios se envolvam na guerra”, disse Tamer.

“O Egito ganha muito dinheiro dos Estados Unidos e não quer arriscar perder isso”, acrescentou Mohammad Shaffy, de 22 anos, colega de trabalho de Tamer.

O Egito é o segundo país que mais recebe ajuda financeira dos Estados Unidos no mundo, atrás apenas de Israel. O país recebe anualmente US$ 2 bilhões, que representam a principal fonte de receitas da economia egípcia.