MST considera Lula um aliado

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Publicado quinta-feira, 8 de abril de 2004 as 00:42, por: cdb

O Movimento dos Sem-Terra (MST) vê o presidente Luiz Inácio Lula da Silva como um ‘aliado’ para a realização da reforma agrária, mas justifica o aumento de ocupações de fazendas dos últimos dias como um meio legítimo de pressão para acelerar o processo. A declaração foi feita na última quarta-feira por um dos coordenadores nacionais do movimento, Gilmar Mauro.

Para os que pedem o respeito à lei e ao direito de propriedade, como representantes do governo e grandes empresários rurais, Mauro responde com a defesa da Constituição.

– Aliás, se cumprisse a Constituição, uma série de propriedades poderia ser desapropriada – disse.

– Passou o ano passado, já estamos em abril (…) vai criando uma situação em que é preciso se mobiliza –  argumentou o militante sobre o recrudescimento das ocupações durante a chamada ‘jornada de luta’ do movimento, iniciada no último dia 27. De lá para cá já foram 45 invasões, mas Mauro negou que haja uma nova orientação do movimento para ocupações de propriedades produtivas.

No fim do mês passado, o coordenador João Pedro Stédile afirmou que o movimento iria infernizar o governo em abril. Depois recuou dizendo que o sentido da expressão era o de pressionar. O presidente Lula, por sua vez, vem repetindo nos últimos dias que a reforma não acontecerá no grito.

– Nós queremos ajudar. Estamos numa situação esdrúxula em que o governo quer fazer a reforma agrária, o ministro (Miguel Rossetto, do Desenvolvimento Agrário) diz que quer fazer, nós queremos fazer e ela não acontece – disse Mauro.

Mauro ressaltou que é possível entender as dificuldades do governo e suas limitações, mas isso não resolve a situação cada vez mais difícil dos acampamentos de sem-terra. Mas é preciso ‘coragem para mudar’ e romper os entraves que atrapalham a reforma.

– Alguém vai ter que perder, não tem jeito – falou.

Segundo ele, os obstáculos vão da falta de técnicos do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), passam pela morosidade da Justiça e chegam, em alguns momentos, à incompetência do Ministério do Desenvolvimento Agrário de gastar os recursos que tem.

– Para se fazer a reforma agrária é preciso haver vistorias, para se ter vistorias é preciso ter técnicos – lembrou.

No caso da Justiça, quando não acontece nenhum atraso, uma desapropriação leva de nove meses a um ano para ocorrer. Se houver recurso, esse prazo pode se estender a cinco anos.
Com 20 anos de existência, o movimento tem hoje cerca de 650 acampamentos em todo o país, envolvendo 120 mil famílias.

Ao comentar sobre propriedades produtivas, Mauro procurou relativizar a invasão e destruição de eucaliptos em uma área florestal da empresa Veracel Celulose.

Ele reafirmou que a ação tinha um sentido mais simbólico, já que se trata de uma empresa multinacional – parte capital brasileiro, parte europeu – e que servia para mostrar que ao lado de uma agricultura moderna existe uma enorme miséria.

O coordenador admitiu, no entanto, a existência de ações radicais, embora tenha argumentado que isso se deve à difícil situação dos sem-terra.

– Somos um movimento de massa, não de anjos. Somos um movimento de povo – disse.

Para o coordenador, um dos problemas enfrentados pelos que defendem a reforma agrária no país é cultural.

– Existe um problema histórico-cultural de ojeriza, de preconceito com a população pobre – disse, apesar do que classificou de ‘uma condição objetiva de concentração fundiária’.

– Para a turma da direita não cabe pobre no projeto deles – completou.

Mauro concorda com o presidente Lula quando ele diz que não basta dar terra para as pessoas, é preciso oferecer também infra-estrutura. Mas discorda do argumento de que o governo não tem dinheiro e aproveita para criticar a política econômica.

– Dinheiro tem, o problema é qual a ordem das prioridades (…) é difícil pensar em um projeto de de