MST completa 20 anos com críticas à economia

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Publicado terça-feira, 22 de junho de 2004 as 10:20, por: cdb

“Ême-ésse-tê! A luta é pra valer!”. Eram cerca de três mil pessoas gritando o chamado do jovem movimento pela reforma agrária que completou 20 anos em 2004. Para a festa, foram assados 2,5 mil quilos de carne de boi. Seis porcos também foram abatidos para o churrasco, que era servido ao lado de uma tenda de circo com mais de dez metros de altura, onde foram montadas barracas de caldo de cana, doces caseiros, frutas e milho cozido.

Habituados aos despejos promovidos pelos policiais militares, os sem-terra tiveram em sua comemoração a presença de quase 40 PMs. Eles foram deslocados para providenciar segurança a deputados, senadores, ministros e até mesmo a uma eventual presença do presidente da República, esperado para a festa do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, o MST, realizada no domingo, 20 de junho.

Mas Lula não apareceu. Dois ministros – Miguel Rosseto, do Desenvolvimento Agrário, e José Fritsch, da Secretaria de Aqüicultura e Pesca – e o assessor especial da Presidência Frei Betto estiveram na festa como representantes principais do governo. Betto leu uma carta enviada pelo presidente, lamentando não estar presente: “Estejam certos de que a luta de vocês, pela função social da terra, é também nossa”, dizia o texto.

Mesmo com a delegação oficial presente, o coordenador do MST João Pedro Stédile não abandonou o discurso de oposição à atual política econômica do governo:

– Neste momento, a reforma agrária que defendemos não vai se viabilizar se não mudar o modelo econômico. O agronegócio produz dólares, mas não comida.

Stédile voltou a defender a necessidade de organização popular, ao reafirmar a luta do MST “até que caia o último latifúndio do país”.

“É a opinião dele”, contrapôs o ministro Rosseto. Em seu discurso, porém, o titular da pasta do Desenvolvimento Agrário também defendeu a luta no campo. “Estas crianças, com seu sorriso, justificam essa luta a ser realizada. Mas uma reforma agrária que não seja ação de assistência social, mas um fortalecimento de agricultura familiar que crie condições de qualidade de vida”, afirmou.

O ministro também citou os povos negros e indígenas: “Vamos avançar muito na demarcação das terras indígenas, e talvez a demarcação definitiva da Raposa Serra do Sol seja o nosso símbolo maior. Os quilombolas também têm direito à suas áreas. Vamos regularizar essas áreas, mas sempre com a perspectiva do desenvolvimento sustentável”, argumentou.

Fritsch, o outro ministro presente, lembrou que nem só da terra vive o homem, que também precisa ter direito à água, “para poder produzir alimentos a partir do peixe”. Advertiu, em sua fala, que a luta pela reforma agrária já perdeu uma batalha ideológica. “Introduziu-se um conceito que não existe em nenhum país do mundo: todas as nações tratam a terra como um bem público, com uma função social; aqui, o latifúndio, a UDR (União Democrática Ruralista) e a bancada ruralista instituíram o conceito da propriedade produtiva e improdutiva. Esse é um conceito de mercado. Nós não podemos esmorecer nessa luta ideológica”, afirmou. “Contem comigo pela luta na reforma agrária e na reforma aquária”.

A festa do MST ocorrreu no primeiro assentamento do estado de São Paulo, chamado Pirituba. A comunidade local é hoje considerado o principal cartão de visitas do