Moscou sepulta vítimas da tragédia do teatro

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Publicado quarta-feira, 30 de outubro de 2002 as 00:20, por: cdb

Os primeiros enterros dos reféns do teatro russo que não sobreviveram à operação de resgate do último sábado começaram a ser realizados nesta terça-feira, em diversos cemitérios de Moscou, enquanto aumentavam as pressões sob o Governo para que explicasse melhor a intervenção das forças especiais e o uso de gás que acabou provocando um elevado número de mortos.

Em um cemitério ao norte da capital, soldados russos marchavam sob o céu nublado para uma última homenagem ao coronel Konstantin Litvinov, que estava na platéia do teatro junto com alguns amigos quando os rebeldes chechenos invadiram o local.

Seu corpo foi sepultado em uniforme, rodeado de dezenas de cravos vermelhos, enquanto sua esposa e seus filhos choravam.

Do outro lado da cidade, os amigos do engenheiro Alexei Batchkov, de 25 anos e que era um amante do teatro, reuniram-se em um cemitério para seu enterro.

A televisão russa mostrou a hora em que o caixão de Batchkov era baixado à sepultura e seus amigos jogavam punhados de terra sobre o ataúde.

Os familiares dos sobreviventes puderam entrar no Hospital 13 de Moscou pela primeira vez, após dias de vigília sob o intenso frio de Moscou e poucas notícias de seus parentes.

Com ramos de flores, o único objetivo dos que foram ao hospital era encontrar parentes desaparecidos.

Duzentos e quarenta e cinco dos reféns resgatados permanecem hospitalizados, sendo 16 deles em estado grave, segundo informou a agência de notícias russa Interfax. Um total de 418 pacientes já receberam alta.

Há nove estrangeiros entre os mortos, incluindo um norte-americano.

Já do lado de fora do teatro, que esteve durante 58 horas em poder dos rebeldes que exigiam a retirada das tropas russas da Chechênia, as homenagens ao mortos e feridos continuavam.

Anna Tunnika, de 56 anos, uma refém liberada pelos chechenos, colocava flores no lugar e contava estar preocupada pela de saúde de sua nora, em estado de coma por causa dos gases usados pelas forças de segurança para invadir o teatro e terminar com a crise.

“Ela está no hospital, em estado grave, em condição crítica”, lamentou.

A operação de resgate do sábado, considerada um sucesso pelo Governo russo, vem recebendo críticas pelo alto número de vítimas entre os reféns.

“Teatro maldito”

Os atores e músicos da comédia musical “Nord-Ost” não atuarão mais no teatro de Moscou invadido por rebeldes chechenos na semana passada, durante a apresentação da peça, declarou o produtor Georgy Vasilyev, em entrevista coletiva, nesta terça-feira.

“Não atuaremos mais neste teatro porque está marcado pelo sangue”, disse Vasilyev. “Mesmo que seja reconstruído, esse lugar continuará sendo maldito”.
Agora, o futuro da primeira comédia musical totalmente russa, que era apresentada com casa lotada cinco noites por semana há um ano, é uma incógnita.

“É difícil imaginar nossos atores interpretando nesse palco e nossos músicos tocando no fosso da orquestra, que foi transformado em banheiro”, declarou Vassiliev. “Considero que seria justo encontrar outra sala para Nord-Ost”.

O grupo checheno obrigou os reféns a utilizar o fosso da orquestra como banheiro público, negando-lhes acesso aos sanitários para evitar fugas.

O musical “Nord-Ost” tem três horas de duração, é baseado no romance “Dois Capitães”, de Veniamin Kaverin, e conta a história de dois estudantes e seus diferentes destinos durante os tempos da União Soviética.

Cerca de 40 atores, 35 músicos e 50 outros funcionários trabalhavam no espetáculo.