Mortes colocam em dúvida segurança no Rali Dacar

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Publicado segunda-feira, 17 de janeiro de 2005 as 21:39, por: cdb

Na manhã do último dia do Rali Dacar 2005 os motociclistas sentaram em um banco e encararam o Oceano Atlântico segurando um cartaz com as palavras “Ciao Fabrizio”.

O italiano Fabrizio Meoni, bicampeão do rali, foi um dos dois pilotos de moto mortos na competição desde ano — revivendo as questões sobre se a famosa corrida deve ser realizada com mais segurança ou se até mesmo deve continuar sendo disputada.

Um membro do parlamento francês escreveu para o primeiro-ministro do país solicitando que a corrida seja considerada ilegal, afirmando que não se pode encorajar estradas seguras no país permitindo que os pilotos arrisquem suas vidas na África.

A fábrica austríaca KTM, que forneceu motos para diversos pilotos de ponta, incluindo Meoni, pediu aos organizadores da prova que aumentem a segurança e disse que sua participação nos próximos anos depende de mudanças.

Mesmo os competidores que completaram os mais de 9.000 quilômetros entre Barcelona e Dacar, passando por Marrocos, o deserto da Mauritânia, Mali e Senegal, estão receosos de voltar no próximo ano.

Ainda abalados pelas mortes de Meoni e do espanhol José Manuel Perez, eles disseram que o perigo faz parte do Dacar.

“Sempre é muito triste ouvir que um competidor morreu, mas a corrida é um desafio e ninguém nos obriga a participar dele”, disse o piloto da Mitsubishi Stephane Peterhansel, que conquistou a competição entre os carros mais uma vez.

“Sabemos que estamos aqui para termos emoções, mas também sabemos que existe um grande elemento de risco, particularmente para as motos”, disse o francês, que foi campeão das motos seis vezes antes de transferir-se para os carros.

Cyril Despres, piloto francês campeão entre as motos neste ano, perdeu dois amigos próximos em apenas alguns meses por causa do rali — Meoni e Ricagrd Sainct, tricampeão do Dacar que morreu no Rali Pharaohs no Egito em setembro.

“Todos os pilotos que estão aqui amam o rali acima de tudo, estão apaixonados pelo deserto, apaixonados pela competição”, disse ele.

“É por isso que fiz 35 ralis em quatro anos e quero continuar”, acrescentou o piloto da KTM. “Richard amava isso, Fabrizio amava isso e amamos isso mais do que tudo.”

O veterano finlandês Ari Vatanen, tetracampeão do Dacar, disse que os organizadores devem sempre buscar a melhora da segurança, mas rejeitou o fim da competição.

“Você também não deve interromper nenhuma atividade humana”, declarou Vatanen, que também é membro do parlamento europeu. “O homem deve sempre descobrir coisas novas, deve saltar no desconhecido.”

O risco das mortes sempre esteve presente no Dacar, que começou a ser disputado em dezembro de 1978 como Paris-Dacar, mas que não larga mais da capital francesa. Vinte e dois competidores morreram desde o início da prova.