Morre o cineasta Walter Hugo Khouri

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Publicado sexta-feira, 27 de junho de 2003 as 21:16, por: cdb

Várias personalidades do cinema brasileiro relembraram a importância do cineasta paulistano Walter Hugo Khouri, morto em São Paulo na madrugada desta sexta-feira aos 73 anos, vítima de infarto.

Seu corpo estava sendo velado na tarde de sexta-feira na Cinemateca e o enterro está marcado para às 10h deste sábado, no Cemitério São Paulo.

Dono de um estilo peculiar, que combinava imagens de alto teor erótico com enredos complexos e acabamento técnico refinado, Khouri manteve sua independência de movimentos e escolas dominantes nos anos 60 e 70, como o Cinema Novo e a pornochanchada, o que lhe valeu polêmicas e inimizades, mas também muitos admiradores dentro e fora do Brasil.

O cineasta começou sua carreira cinematográfica como assistente do diretor Lima Barreto durante a preparação do filme O Cangaceiro, nos estúdios da Vera Cruz.

Talentoso crítico de cinema, o aprendizado com Lima Barreto deixou frutos por toda a sua carreira.

O gosto por trabalho de estúdio, enquadramentos perfeitos e a escolha de bons técnicos, um legado da Vera Cruz, logo o distanciaram das propostas do Cinema Novo de Glauber Rocha, mais preocupado em mostrar com despojamento as mazelas sociais brasileiras do que os dramas existenciais da classe média.

Em 1953 rodou seu primeiro longa, O Gigante de Pedra, com as atrizes Odete Lara e Edla van Steen. É o autor do roteiro e também operador da câmera, uma característica que manterá em seus trabalhos futuros, criando um estilo próprio.

Cinco anos depois, filma Estranho Encontro, que se contrapõe a Rio 40 Graus, de Nelson Pereira dos Santos. Enquanto Nelson, um dos mestres do Cinema Novo, bebe nas origens do neo-realismo italiano, Khouri fecha o foco em seus personagens no interior de uma casa.

É o que basta para ser acusado de alienado e de não abordar as grandes questões brasileiras.

Em 1964, lança Noite Vazia, seu grande ensaio existencial, com Norma Bengell e Odete Lara no papel de duas prostitutas que se relacionam com um ricaço à procura de prazer.

Nos momentos em que a câmera abandona o quarto onde estão seus personagens, a cidade de São Paulo é mostrada com cores cinzentas, num clima opressivo. Para seus críticos, o diretor parecia estar mostrando outro país e não aquele atingido pelo golpe militar.

Norma Bengell, que protagonizou outros dois filmes do cineasta, O Palácio dos Anjos (1970) e Eu (1986), lembra que foi convidada a filmar com o consagrado diretor francês Jacques Rivette (de Quem Sabe) por causa de uma única cena, filmada num elevador, em Noite Vazia.

Alheio às críticas, Khouri continua fiel a seus princípios. Em 1965, filma Corpo Ardente, lançando para o estrelato Dina Sfat e Lilian Lemmertz.

Nos anos 70, o diretor se aproxima dos produtores da Boca do Lixo paulistana, berço da pornochanchada. Desse período são As Deusas e O Último Êxtase, ainda com uma forte marca pessoal.

Em 1982, filma Amor, Estranho Amor com a iniciante Xuxa Meneghel seduzindo um adolescente. Já famosa como apresentadora de TV, Xuxa tentou tirar o filme de circulação.

Paixão Perdida, de 1998, foi seu último trabalho.

– Perdemos um cineasta e eu perdi um grande amigo, uma pessoa adorável, superzen, super-seguro, que nunca maltratava ninguém num set de filmagem nem levantava a voz – afirma Bengell, anunciando que pretende produzir um documentário sobre ele em 2004.

Assistente de direção em dois filmes de Khouri, A Ilha (1962) e “Noite Vazia” (1964), o cineasta Alfredo Sternheim acentua que o diretor “dominava muito bem a linguagem cinematográfica, com um grande requinte de acabamento, numa época em que se desprezava isso, por conta do surgimento do Cinema Novo”.

Sternheim destaca que Khouri nunca abriu mão do cinema que queria fazer, embora observe que depois levou esse estilo a um extremo.

– O trabalho dele no final ficou pessoal demais – afirma.

Sternheim lembrou ainda que Khouri não se intimidou nunca com a cobrança dos críticos, muito forte nas décadas de