Moradores denunciam envenenamento de toda uma cidade

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Publicado quinta-feira, 13 de abril de 2006 as 10:25, por: cdb

Segundo maior produtor de grãos do Brasil, o município de Lucas do Rio Verde (MT) sofreu um acidente ambiental dentro de sua área urbana. As casas, as plantas frutíferas, ornamentais e medicinais, e as próprias pessoas ficaram expostas aos efeitos de uma pulverização ilegal de agrotóxicos. Segundo a associação de pequenos produtores, sindicatos locais e especialistas, o veneno era um herbicida dessecante para apressar a colheita da soja, cultura que trouxe os lucros para os grandes produtores da região.

Despejado irregularmente com um avião monomotor no início de março, o veneno é amplamente utilizado na monocultura da soja. O produto pode causar imediatamente vômitos, diarréias, dores de cabeça e, a longo prazo, até câncer. O estrago se estendeu desde as dezenas de pequenas hortas particulares, plantas frutíferas e ornamentais, o Horto de Plantas Medicinais, ligado à Fundação Padre Peter, e até as pessoas, que se queixaram de diarréias, vômitos e urticárias. Cerca de uma semana depois do acidente, dois especialistas chegaram ao município para avaliar o impacto do acidente ambiental: Wanderley Antonio Pignati, mestre em saúde coletiva da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), e o engenheiro agrônomo James Cabral da Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional (Fase).

Juntos, eles investigaram a contaminação e redigiram uma notificação, que foi encaminhada para diversos órgãos municipais, estaduais e federais de saúde e vigilância sanitária. Entre os prejudicados pela pulverização estão os pequenos produtores que vivem no entorno da cidade. O chacareiro Ivo Casonato, que perdeu toda a sua produção de frutas e hortaliças, disse que testemunhou o momento em que o avião fazia rasantes sobre a sua propriedade.

– O céu estava cheio de nuvens pesadas. No horizonte, podia-se ver a cortina d´água. Do outro lado do Rio Verde, a menos de 500 metros, um avião fazia pulverização de agrotóxico sobre a lavoura de soja do vizinho – relata.

A bióloga Lindonésia Andrande, responsável pelo Horto Medicinal, disse que o efeito de veneno foi bem rápido. No dia seguinte à pulverização, em 2 de março, o estrago já era visível em toda a cidade.

– As folhas ficavam como um papel amassado e queimado, outras ficavam todas perfuradas e em volta dos furos logo começava a necrosar [apodrecer]. No quarto dia as folhas entraram em necrose total e começaram a cair – lembra.

Depois do acidente, foi instalado pelo Ministério Público um procedimento administrativo para apurar os fatos. A pedido da promotoria, a Delegacia de Policia Civil de Lucas do Rio Verde abriu inquérito civil e criminal. Até agora, no entanto, ainda não foram feitas as perícias para identificar as provas materiais do crime.

Todo ano

Segundo o chacareiro Sergio Miller, morador do entorno de Lucas do Rio Verde, “agora as pulverizações pararam, porque acabou a colheita da soja, mas todo ano acontece isso”.

– São pilotos que querem aparecer que sobrevoam a cidade com aviões agrícolas utilizados para pulverizar agrotóxicos sobre as lavouras – disse. Ele explicou que, com o vento forte, apenas algumas gotas do veneno que saiam dos tanques das aeronaves são suficientes para provocar uma neblina sobre toda a cidade.

Sergio Miller tem uma pequena propriedade de pouco mais de quatro hectares onde produz hortaliças. Após a pulverização que ocorreu este ano, ele teve erradicar toda a sua produção. Segundo ele, o poder público deveria ser mais rigoroso e fiscalizar quem utiliza agrotóxicos.

– Eles jogam isso pra gente, acham que a gente tem que fiscalizar, tem que pegar o prefixo do avião, tirar foto. Só que nosso instrumento de trabalho é uma enxada, não é uma máquina fotográfica – afirmou.

O chacareiro acha que as autoridades deveriam fazer cumprir a lei, que determina que certos tipos de agrotóxicos não podem ser aplicados por aviação agrícola e que esse tipo de pulverização só p