Moradores de Pilar acreditam que bruxa fez casal desaparecer

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Publicado segunda-feira, 30 de julho de 2001 as 16:37, por: cdb

Feiticeira teria sido responsável pelo desaparecimento de um casal de pesquisadores, que chegou à cidade há mais de um ano procurando informações sobre uma senhora esotérica

A cidade de Pilar de Goiás (250 quilômetros de Goiânia), tombada como Patrimônio Histórico Nacional em 1937, vem servindo de cenário para a versão tupiniquim de A Bruxa de Blair, um dos maiores sucessos de bilheteria do cinema norte-americano dos últimos tempos. A protagonista da trama é uma senhora idosa, apontada por alguns pilarenses como feiticeira e acusada de ser a responsável pelo desaparecimento de um casal de pesquisadores, que a teria procurado há cerca de um ano a fim de colher informações sobre sua vida esotérica.
A falta de provas deixa dúvidas quanto a veracidade do fato, mas o boato que passa de boca a boca já se fixou a história no imaginário popular. Mesmo que tudo não passe de invenção, a famosa bruxa de Pilar alegra o cotidiano da cidade e dá um caráter todo peculiar ao município goiano.
“Já ouvi suas risadas e sussurros. É um ruído forte, que divaga na noite por toda a cidade”, diz a dona de casa de 86 anos Gertrudes Ferreira Coelho. Há 50 anos essa senhora vive em uma casa simples, ao lado da Cachoeira de Ogó, local cheio de grutas por onde correm as águas do Rio das Almas, citada por alguns como a morada da feiticeira e que, no passado, era utilizada por escravos na extração de ouro.
A maior parte da sua vida, Gertrudes passou sozinha em seu lar, que, apesar de ser próximo da cidade, causa arrepios pelo tom sombrio e pacato. “Nunca tive medo dela (da bruxa). Assim que me mudei para cá, algumas senhoras velhas na cidade me disseram para tomar cuidado com a tal bruxa porque ela costumava matar crianças em seus rituais profanos.”
O isolamento de dona Gertrudes e sua proximidade de longa data com a Cachoeira de Ogó faz a criançada de Pilar a confundir com a feiticeira. “Sei que ela é benzedeira. Se tiver uma bruxa por aqui, deve ser ela”, diz um garoto de 11 anos que acompanhou a reportagem do Diário da Manhã ao local.
A dona de casa nega ser uma bruxa e afirma não benzer ninguém. “Quem benzia era minha nora, que nem mora mais comigo” se defende. Para ela, a feiticeira já não está mais no local. “Depois que o padre Ademir chegou em Pilar, não ouso mais seus barulhos a noite”.

População nega
Pelas ruas da cidade, a maior parte da população, principalmente os mais jovens, diz não ter conhecimento, da existência de uma velha com poderes sobrenaturais. Outros, desconversam. Mas basta persistir um pouco no questionamento, que a verdade aparece. “Já ouvi falar dela, mas acho que não passa de história que o povo conta”, diz o aposentado José Francisco Silva, que a princípio havia dito não ter conhecimento de nada sobre o assunto.
O delegado da cidade, Sargento Neto, diz que na delegacia de Pilar não há registros das travessuras da bruxa. Seus agentes afirmam nem ao menos conhecerem a história do sumiço do casal de pesquisadores.
Os policiais acham estranha a história do desaparecimento e ressaltam que a vida na cidade é muito tranqüila. O última ocorrência mais violenta aconteceu em janeiro de 1999. Nesse dia, um sujeito apelidado de Dadá assassinou a sogra e a própria esposa. Tendo sido preso mais tarde na Espanha, hoje ele se encontra preso no Centro Penitenciário, em Goiânia.

Passado profano alimenta as fantasias da população

A cidade de Pilar de Goiás é uma das mais antigas do Estado, cujo arraial que lhe deu origem foi fundado em 1741 pelo capitão de cavalaria João de Godoy Pinto da Silveira. Sua história ao longo dos anos foi marcada por relações, por vezes conflituosas, por vezes harmônica, entre mineiros paulistas, índios e escravos.
Com tanta mistura, o catolicismo não foi dominante, tendo sempre sido forte, no passado de Pilar, práticas e rituais profanos, como cavalhadas, moçambique, faieiras, coroação do rei congo, entre outros.