Moradores de Hong Kong não entendem o tumulto

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Publicado quinta-feira, 15 de dezembro de 2005 as 12:26, por: cdb

“Quer aprender alguma coisa sobre o livre comércio? Leia as obras do renomado economista do século 18 Adam Smith ou simplesmente visite Hong Kong”. Esse conselho do último governador britânico de Hong Kong foi abafado esta semana pelos milhares de manifestantes antiglobalização que foram à cidade no sul da China para a cúpula mundial de ministros do comércio. Os manifestantes tomaram um parque da cidade e fazem passeatas diárias denunciando a Organização Mundial do Comércio (OMC) e a globalização.

Slogans como “gente antes dos lucros”, “não ao corte de tarifas” e “abaixo a OMC” ecoam pela se cidade que se orgulha de ser um dos maiores centros financeiros do mundo e um exemplo do capitalismo laissez-faire. O território foi devolvido pela Grã-Bretanha à China comunista em 1997, mas pôde continuar com as mesmas características econômicas.

Hong Kong iniciou sua trajetória rumo à riqueza como um ponto de convergência dos comerciantes britânicos no século 19. Na época, assim como hoje, a localização do portal para a China garantiu sua prosperidade graças à demanda mundial aparentemente insaciável por produtos chineses exóticos e baratos. Muitos dos quase sete milhões de habitantes e seus ancestrais chegaram à área com nada, fugindo da pobreza da China continental comunista. Histórias de enriquecimento são comum, e a cidade é constantemente considerada uma das economias mais abertas do globo.

Tem um dos portos mais movimentados do mundo, com quase meio milhão de barcos visitantes no ano passado, e abriga a segunda maior bolsa de valores de Ásia, atrás apenas de Tóquio. Os impostos estão entre os mais baixos da região. O ex-presidente norte-americano Bill Clinton disse que Hong Kong é prova da “interdependência global e seus benefícios”.

As coloridas passeatas que denunciam o livre comércio parecem inadequadas numa cidade que deve sua prosperidade à livre compra e venda, mas alguns dizem não haver contradições.

– Hong Kong é um dos exemplos que podem ser usados como ponto de referência. Mas não achamos que significa que isso se aplique a todos – disse Mabel Au, coordenador de um grupo que organiza os protestos esta semana.

Praticamente sem recursos naturais próprios, Hong Kong tornou-se fortemente dependente do comércio internacional. Mas nem todos se beneficiaram dele — na cidade mais conhecida por seus arranha-céus e magnatas com frotas de Rolls-Royces, uma em cada quatro crianças vive na pobreza.