Montagem da exposição que abre no dia 3, no Museu de Antropologia do Vale do Paraíba

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Publicado terça-feira, 27 de março de 2012 as 15:29, por: cdb

Montagem da exposição que abre no dia 3, no Museu de Antropologia do Vale do Paraíba

Valter Pereira/PMJ

Exposição exibe “quintal de cores e poesias”

Quando o quintal ultrapassa os limites da nossa casa e passa a ser visto como a nossa rua, nosso bairro, nossa cidade, nosso país e, sem exageros, nosso planeta: foi a partir desta ideia que a artista plástica Edna Cassal organizou a exposição Meu Quintal que pode ser visitada, a partir do dia 3, no Museu de Antropologia do Vale do Paraíba.
    São 20 crônicas e poesias e mais 31 pinturas em tela, todas inspiradas na proposta da artista. “Desafiei os alunos: o que é o quintal para vocês? Vamos falar do quintal de cada um. E saíram trabalhos surpreendentes”, comenta Edna Cassal.
    Os autores são artistas amadores, que resolveram encarar o desafio de transformar em arte o seu quintal. Os trabalhos foram produzidos durante uma oficina que integra o projeto Meu Quintal, beneficiado pela LIC (Lei de Incentivo à Cultura) da Fundação Cultural de Jacarehy, desenvolvida de agosto a dezembro.
    Entre as pinturas apresentadas na exposição está o quadro “Silêncio”, que revela um uma casa no campo sob um céu de estrelas. O autor é o cozinheiro José Martins Nogueira, 70 anos. “O quadro é fruto da minha inspiração. Mas, para mim, o quintal vai além das lembranças de infância, quando a casa em que eu morava tinha um grande quintal. Hoje entendo que o mundo todo é um quintal”, afirma.
    A pintura em acrílico “O gato” — em que o felino faz pose de artista em meio a um gramado salpicado de flores – é arte da dona de casa Rosangela Aparecida do Nascimento. “Sempre gostei de pintura e desenho, e aproveitei a oportunidade da oficina para me aperfeiçoar. E foi bom porque aprendi a conhecer melhor as cores e saber como combiná-las na pintura”, diz.
    Já em relação ao tema “Meu Quintal”, assim como Nogueira, ela revela que o conceito de quintal vai além dos limites de casa. “Moro numa casa sem quintal. Mas tudo ao meu redor me lembra quintal, que é algo que está dentro de mim, que trago desde a infância. As minhas pinturas revelam sempre o verde, a flor, os animais”, explica.

Crônicas e Poesias saem da gaveta
    A estudante Beatriz Meier de Almeida, 14 anos, e a aposentada Ana Maria de Souza, 61 anos, têm em comum o hábito de ler e escrever poesias. A exposição Meu Quintal é uma oportunidade para as duas “tirarem da gaveta” não só a inspiração, mas a coragem de expor seus trabalhos.
    Ana Maria conta que foram quase 40 anos para ter coragem de mostrar “para todo mundo” que escreve poesias. “Escrevo poesias desde os 12 anos. Algumas eu guardava, outras jogava fora. Por ter pouco estudo, ficava na dúvida se o que escrevia era bom ou era tudo bobagem”, diz. Mas com o apoio dos filhos aprendeu a “mexer” no computador, criou um blog – www.poemasdagaveta.blogspot.com – e matriculou-se na Faculdade da Terceira Idade.
    No ano passado, viu no projeto Meu Quintal mais um incentivo para escrever poesias e divulgá-las. “A Edna (Cassal) nos deu total liberdade para escrever. Independentemente das regras, ela explicou que o mais importante é a inspiração”, comenta.
    Em dezembro passado, assim que concluiu a oficina Meu Quintal, Ana Maria resolveu reunir e publicar suas poesias. “Fiz tudo em segredo. Reuni as poesias, digitei e depois fiz um livrinho, que é simples mas para mim tem grande significado. No Natal presentei meus filhos e amigos. Foi uma emoção só”, relata.
    Entre as poesias, está “Meu Quintal”, um protesto contra o descaso com as ruas. “Presto atenção nas ruas, no lixo que as pessoas jogam e entopem as bocas-de-lobo. As ruas também são nosso quintal, precisamos cuidar bem de tudo isso”, comenta.
    Juvenil — “O poeta tem uma visão diferente dos outros. Ele busca a essência das coisas e consegue colocar no papel.” A definição é da adolescente Beatriz, que assim como a aposentada Ana Maria, resolveu tirar, literalmente, suas poesias da gaveta.
    Aos 14 anos, Beatriz impressiona não só pela maturidade em expor seu ponto de vista mas também quando lista os autores preferidos: Clarice Lispector, Caio Fernando Abreu, Fernando Pessoa, Mário Quintana. “Muita gente critica, mas eu, particularmente, também gosto do Paulo Coelho”, complementa.
    E foi o prazer pela leitura que levou Beatriz a escrever crônicas e poesias. “Comecei a escrever como uma forma de desabafo, colocando no papel coisas que me angustiavam, mas enfiava tudo na gaveta. Não tinha coragem de mostrar para os outros”, confessa. “Mas com o projeto Meu Quintal, criei coragem e comecei a mostrar o que escrevo. A gente pode até achar que o que fazemos é legal, mas ter o reconhecimento dos outros é muito importante”, admite Beatriz.
    Serviço – Exposição Meu Quintal — Museu de Antropologia do Vale do Paraíba, rua XV de Novembro, 143, Centro. De 3 a 30 de abril, de terça a sexta-feira, das 9h às 18h, e sábado e domingo, das 11h às 17h. Visitas podem ser agendadas pelo telefone 3953-3574. Entrada gratuita.
    (Rosana Antunes)