Ministro argentino admite que país precisa do mercado brasileiro para superar crise

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Publicado terça-feira, 22 de janeiro de 2002 as 00:46, por: cdb

O ministro argentino da Produção, José Ignácio de Mendiguren, reconheceu nesta segunda-feira que a Argentina precisa do acesso ao mercado brasileiro para reativar a sua produção em curto prazo. A declaração foi dada logo depois de seu primeiro encontro com o embaixador do Brasil em Buenos Aires José Botafogo Gonçalves.

Mendiguren adiantou que, ainda nesta semana, técnicos dos bancos centrais dos dois países deverão destravar o Convênio de Crédito Recíproco (CCR), um mecanismo de garantia às operações comerciais. Também antecipou que os dois países começam nesta semana a trabalhar na integração de suas cadeias produtivas.

O encontro entre o ministro e o embaixador ocorreu pouco antes de uma reunião promovida na Casa Rosada, na qual União Industrial Argentina (UIA) e a Condeferação Geral dos Trabalhadores (CGT) deram o apoio formal ao governo para levar adiante seu plano econômico. As duas principais entidades empresarial e sindical insistiram na necessidade da reativação da atividade econômica nos próximos meses, como forma de barrar o avanço do desemprego e de contornar a crise social pela qual atravessa o país.

Hoje, pelo menos três protestos ocorridos no país contra a política econômica do governo foram conduzidos por desempregados. “Há uma nova relação com o Brasil, que parte de algo concreto, que é a possibilidade de harmonização de políticas econômicas”, afirmou Mendiguren. Com o Brasil, é importante ter um horizonte de produção maior em curto prazo, completou.

Mendiguren explicou que, desde a posse do novo governo e da mudança da política cambial, os dois principais sócios do Mercosul estão agora em condições de retomar as negociações travadas desde julho do ano passado. O principal delas será o acordo automotivo bilateral, cujas regras tendem a punir as montadoras brasileiras que ultrapassaram os limites para a compra de veículos argentinos.

Conforme informou, o secretário brasileiro do Desenvolvimento da Produção, Reginaldo Arcuri, estará em Buenos Aires nesta semana para tratar o tema e ainda a integração das cadeias produtivas. Tema antigo na pauta de conversas entre os dois países, a integração chegou a ser analisada mais a fundo no caso da cadeia de madeira e móveis. Mas o processo acabou travado pelas animosidades acumuladas entre os dois países no segundo semestre de 2001.

Desta vez, Mendiguren prometeu levá-lo adiante e indicou que o projeto deverá envolver também os setores automotivo, de calçados, têxteis e de confecções. A idéia é eliminar gargalos em toda a cadeia produtiva dos dois países, de forma a adequá-las à competição no mercado externo.

“Falei ao embaixador (Botafogo) que a Argentina e o Brasil não podem mais aceitar ser uns meros exportadores de matérias-primas e não ter acesso ao mercado de produtos com maior valor agregado, que é aquele capaz de elevar o padrão de vida das nossas populações”, afirmou Mendiguren.

Hoje, entretanto, Botafogo saiu do gabinete de Mendiguren sem uma resposta concreta ao pedido do Brasil para que sejam retomados os embarques de trigo argentino. A solicitação já havia sido apresentada há dez dias pelo próprio ministro das Relações Exteriores, Celso Lafer, ao chanceler argentino, Carlos Ruckauf. No ano passado, o Brasil comprou US$ 847 milhões em trigo do país vizinho.

O ministro argentino ainda alimenta as dúvidas de setores brasileiros sobre os caminhos da sua política comercial. Hoje, ele defendeu que seu país aplique de forma mais eficiente as medidas de defesa comercial como o antidumping e as de compensação aos subsídios e adote como princípio a reciprocidade. Mas, no caso do Brasil, ele assegurou que a desvalorização do peso não foi suficiente para uma total harmonização de políticas econômicas com o vizinho em uma indicação de que restariam ruídos sobre a mesa de negociações.

Conforme afirmou, seu país estaria propenso a levar com maior cuidado as negociações para a abertura de seu mercado, para assegurar o acesso no mesmo grau a outr