Minha avó Helena fugiu do Líbano pouco antes da 1ª Guerra

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Publicado sábado, 22 de setembro de 2001 as 13:20, por: cdb

Sírio-libanesa, entrou num navio fugindo da intolerância, rumo ao Brasil, este país desconhecido. Aqui, minha avó se casou com Demócrito, um filho de preto bastardo, filiado ao Partido Comunista, preso várias vezes pela polícia de Getúlio.

De Helena e Demócrito, nasceu Esmeralda, minha mãe petista, que se casou com outro descendente de pobre, Sócrates Guanaes. Meu pai veio do Remanso lá no São Francisco. Guanaes é uma corruptela de Guaianazes, tribo indígena que deu origem à família dele.

Uma família guerreira. Na guerra da Carnaúba, uma luta de terras entre senhores feudais, meu avô enterrou três irmãos em uma única noite.

Quem tem um passado desses, árabe bastardo, comunista e índio, não pode ficar indiferente à discussão do dia.

O acontecimento do World Trade Center é uma atrocidade inaceitável.

E os Estados Unidos não podem e não devem deixar o episódio sem resposta virulenta…

Os Estados Unidos são uma grande nação. Que acolhe gente do mundo inteiro e que não tem dado ao mundo só mostras de arrogância diplomática. É uma nação que gera música, cinema, literatura, ciência em quantidades espetaculares. E acolhe refugiados do mundo inteiro.

Não vou endossar nenhum antiamericanismo recalcado.

Entretanto, como bem citou Arnaldo Jabor: não se combate a monstruosidade virando um monstro.

O presidente americano está numa sinuca.

Da mesma forma que as forças do bem no mundo viraram ONGs, as forças do mal também. O terrorismo é a ONG do mal. Esta guerra será a guerra de um estado contra ONGs.

Mas se Bush precisa dar uma resposta eficaz e cirúrgica à guerra; ele também precisa cuidar das violências que geraram essa violência estúpida.

Da mesma forma que nós, “paulistanos abastados”, viramos de costas para as injustiças e agressões da periferia e só acordamos no dia em que ela vira bicho e nos assalta; o Ocidente tem feito pouco para ajudar a resolver os problemas desses bairros mais afastados do mundo.

A periferia do mundo, através de um maluco, resolveu aprontar uma no Morumbi do planeta, que é Nova York.

Ou seja, a filha do Silvio é o WTC, os 100 sequestros deste semestre em São Paulo são o WTC.

E os morros do Rio, onde o governo já não manda, são o Afeganistão.

O Bush tem um problema mundial a resolver. FHC tem um problema nacional a resolver. Marta Suplicy tem um problema municipal a resolver.

O problema é de todos nós.

A Freguesia do Ó perdeu a paciência.

E aqueles prédios, meus amigos, caíram em cima de todos nós. Matando, além de milhares pessoas, muito da nossa liberdade, esperanças e sonhos.

Não dá mais para empurrar com a barriga. Além de caçar Bin Laden, é preciso caçar a violência que gerou esse monstro.

Se não for assim, não teremos paz. Afinal como diz a música tema da Big Apple: “If you can make it there, you can make it anywhere. It’s up to you. New York, New York”.

*Nizan Guanaes é publicitário e CEO do Internet Group