Milton Schwantes. Impressões, Aprendizados e Compromissos

Arquivado em: Arquivo-CdB
Publicado quinta-feira, 1 de março de 2012 as 16:07, por: cdb

Era quasefinal do ano quando Élcio (Sant’Anna) me levou para falar com ele. Lá, em SãoPaulo – na verdade São Bernardo do Campo. Já, no primeiro papo foi incisivo: – sou Portuguesa, mas vocês flamenguistas sãomelhores que os corintianos aqui. São urubus, do terreiro, dos ritos afrodescendentese da bela herança indígena. Seguiu dizendo que a Paróquia que trabalhava emGuarulhos, os alemães duros e rígidos foram dando o lugar para os pobres e osritos afro. Eles tinham tomado o poder na igreja. Segundo ele, os alemães, atétentaram reverter á situação, mais os “favelados” de Guarulhos souberamarticular a liderança. Tornaram a comunidade mais justa.

Essafoi a minha primeira conversa com Milton. É verdade. Era para ser uma orientaçãopara o mestrado, mas ele só falou de poder, politica e hegemonia. No início,fiquei intrigado. E, para terminar, disse, ativamente, que sonhava viver noRio, na zona Sul do Rio, em Botafogo. Segundo, ele, o único empecilho era sua vistaficava incomodada com a claridade do Rio. Assim, terminara o primeiro encontro.

 

Forammuitos ao longo do mestrado. Foi me ensinando encontro a encontro, de conversaa conversa, e de aula a aula. Mesmo não sendo fácil ir toda a semana para SãoPaulo, as aulas do Milton ajudavam. Era como nos encontros das comunidades, ondetodos falavam, todos opinavam, ajudavam e produziam. Dessa forma de grão emgrão: lendo, estudando e analisando a partir dos encontros semanais,apreendendo a teoria social, crítica e a política. Na mesa junto do nossoobjeto de estudo, a Bíblia, e entre os iguais (católicos, protestantes,espiritas e etc.), percebi o dever cristão de politizar-se. Intervir e agir emprol de uma da justiça social. Dessa forma, percebemos em sala de aula que a religiosidade(não importa qual) que nutrimos aqui na América Latina, exige o imperativo da lutapela transformação social. Essa era a dignidade da religião – seu ímpeto ético.

 

Também,quando, na banca de conclusão, logo que chegou disse em tom profético: “vocênão é pecador!” – indicando que deveria passar. Entre as muitas sinalizações,pediu para ler (que faço até hoje), os textos de Carlos Heitor Cony. O que lembrouno último encontro, quando junto com a linda Rose, cortando e dando as laranjaspara comermos disse (me deixando orgulhoso) que meu estágio com o Cony estavasendo muito proveitoso. E, que sendo assim, não deveria largar os estudos e ostextos. Ele me animava diante das dificuldades da profissão docente no Brasil.

 

Bom,se pudesse dizer, de forma rápida, e corrida, é isso que hoje vem e memória doMilton. Como pastor, sempre esteve atento as necessidade das suas comunidades,atento às questões principalmente das favelas e das roças. Como professor,sempre estava atento aos alunos, mas, mais a forma com que os alunos percebiama vida, sempre disposto a lutar para conscientização deles. Como intelectual,analisava o passado para entender o presente. Nesse caso, o presente era fontede reflexão e engajamento, circulando por horas nos setores das classes mediasde São Paulo, mas, seu apresso principal era junto os setores populares, istoé, entre organismos como MST e as CEB’s. Sempre analisando, se posicionando e articulandoa sistemática da sociedade, sobre olhar direcionado á organicidade desta.Fez-se como Antonio Gramsci teoriza no seu processo revolucionário, um “intelectualorgânico”.

 

Éverdade, acho que perdeu o Rio de Janeiro, que infelizmente, não teve o prazerde ter tido como habitante. Muito menos Botafogo, de ser palco de suas análises,políticas, histórias, teologias e exegeses, que se espalhariam por toda AméricaLatina. Mas, podemos dizer que se ao menos não viveu por aqui, mesmo assim,fomos iluminados por esse pensador, autor e entusiasta. Ora, nos orientando, oraescrevendo textos sobre o cristianismo, exegeses e politica, e ora nos muitos cursose palestras.

 

Porfim, Milton Schwantes, agradecemos seu incentivo á compreensão da vida, e aimportância sempre de se posicionar nela – mesmo sendo Portuguesa! Agradecemos,por ter nos ensinado que a própria luta e preocupação com o outro é politica.Ela vem da aceitação de que todos nós de fato, somos pecadores, logo, nosdeixando aptos no hiperativo de lutar para que nossa sociedade se torne maisjusta.

 

E,agradecemos também, por ter cortado e dado com tanto carinho as laranjas, logoapós o almoço. Mas, parece ser um gesto profético, que mostra que além debuscar saciar a fome com comida, a laranja servida deixa um mel, um doce na bocasem igual. Assim, pelo gesto, penso na responsabilidade que nos deixou de nãosó lutar pela comida a todos, mas também, permitir direito á doçura da vida. Permitindoacesso a suas belezas e encantamentos, como você Milton, foste em nossas vidas!

 

Enfim,por isso, resta a nós além do dizer que apreendemos e entendemos a vida,assumir compromissos. Responsabilizamos-nos, em nome das nossas mães, pais,filhos e filhas da América Latina a lutar para que um dia, a primavera cheguepor aqui. Trazendo sobre nós o novo. Mesmo que a terra não suporte mais nossaspalavras, seguiremos na busca de uma nova sociedade marcada pela luta e justiça,só sinalizada com a vitória histórica dos pobres. Milton, Deus conosco!

 

E,agora… acho que ele tem sorte, por que tem você por perto para descascar suaslaranjas. Saudades de tu, professor.

 

[Autor de Nas veiascorrem esperanças… (publicado pelo CEBI, em 2009)]