Mercosul não está pronto para moeda única, dizem analistas

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Publicado sexta-feira, 9 de maio de 2003 as 13:09, por: cdb

A criação de uma moeda única no Mercosul é vista por analistas como uma boa proposta, mas só para o futuro.

Antes de se chegar a ela, os países do bloco, especialmente a Argentina, precisam organizar as respectivas economias para que possam chegar a ciclos econômicos que sejam coincidentes.

Analistas ouvidos pela BBC Brasil também alertam para os problemas que a moeda única pode causar para as diferentes economias, como acontece com os países da zona do euro.

Ao abrir mão da soberania sobre a política monetária, os países perdem um instrumento precioso para conduzir suas economias, podendo ser prejudicados por uma política única de juros, como acontece agora com a França e a Alemanha na Europa, por exemplo.

Por outro lado, em uma zona aduaneira, a estabilidade cambial é fundamental para o crescimento do comércio e da economia dos países envolvidos, segundo especialistas.

Grandes diferenças no valor das moedas de países de uma zona aduaneira podem até impulsionar o comércio, mas levam ao caos econômico, como aconteceu com a Argentina até a desvalorização do peso, segundo Francisco Panizza, especialista em Mercosul da London School of Economics.

O Brasil é o principal parceiro comercial da Argentina – em média, cerca de 25% das exportações argentinas vão para o mercado brasileiro.

Desde a flutuação do real, em janeiro de 1999, o câmbio fixo na Argentina acabou inviabilizando a competitividade dos produtos argentinos em comparação aos brasileiros.

– A proposta de criação de uma moeda única em uma zona aduaneira é muito positiva, mas a política cambial não é isolada das demais políticas macroeconômicas – avalia Panizza.

– Antes de uma moeda única, os países precisam passar por um processo de convergência de suas economias e isso não é fácil, como mostra a experiência européia, em que a criação do euro demorou muitos anos – acrescenta.

Quando um bloco de países adota uma moeda única, a responsabilidade sobre a política monetária – como a fixação dos juros – deixa de ser de cada país e passa a ser de um banco central comum.

Foi isso o que aconteceu com os 12 países da Europa que adotaram o euro como moeda. O banco central de cada um perdeu sua função de autoridade monetária, tranferida ao Banco Central Europeu (BCE).

O BCE fixa os juros de acordo com as condições econômicas da média dos países, o que significa que a taxa pode ser inadequada para alguns deles.

Neste momento, por exemplo, o euro valorizado prejudica as economias da Alemanha e da França, pois afeta a competitividade das exportações dos dois países, que têm inflação baixa e enfrentam uma desaceleração da economia.

Uma boa receita para os dois poderia ser o corte de juros, que reduziria a valorização da moeda e ainda impulsionaria o crescimento a partir da demanda doméstica.

No entanto, outros países da zona do euro – entre eles, a Espanha ou a Irlanda, por exemplo – têm inflação e taxa de crescimento mais elevadas e sofreriam com a queda das taxas.

O BCE tem que atender à média e, com isso, não pode baixar os juros a um limite que beneficiaria as duas maiores economias da zona do euro, Alemanha e França.

Situação semelhante acontece com a fixação dos juros pelo Federal Reserve (Fed, o banco central americano), que é feita pela média das regiões do país e, com isso, também acaba beneficiando determinadas áreas e prejudicando outras, segundo Nuno Camara, economista para América Latina do banco de investimentos alemão Dresdner Kleiwort Wasserstein (DRKW).

– Dentro do mesmo país, essas diferenças podem ser resolvidas com outras políticas, inclusive de ordem fiscal, mas quando envolve países, isso vira uma problema nacional – observa Camara.

– A situação fica difícil quando o país perde a soberania sobre a política monetária, como mostram os problemas enfrentados pela França e pela Alemanha. A Grã-Bretanha reluta em aderir ao euro porque está vendo as dificuldades quando se abre mão de uma política monetária s