Medo de ‘segunda Guerra do Golfo’ toma ruas de Israel

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Publicado terça-feira, 14 de janeiro de 2003 as 15:12, por: cdb

Ainda nem se sabe se a guerra contra o Iraque realmente vai acontecer, mas as principais ruas de Israel já foram invadidas por centenas de pôsteres mostrando uma sala da aula cheia de alunos usando máscaras de gás sobre a legenda “Vai começar no fim de janeiro”.

Nada de propaganda oficial, trata-se de uma polêmica campanha publicitária lançada por uma das principais empresas israelenses na área dos cursinhos para vestibular, a High Q.

Antes mesmo do lançamento do primeiro míssil, a “segunda Guerra do Golfo” – como o possível conflito vem sendo chamado no país – e as suas repercussões para Israel já estão presentes no consciente e inconsciente das pessoas, nas paisagens urbanas e nas prateleiras dos supermercados.

O vice-diretor da High Q, Eran Stein, disse à BBC Brasil que a foto que aparece atualmente em mais de mil pontos de ônibus no país é autêntica.

‘Resistência’

“Ela foi tirada durante a primeira guerra do Golfo, em 1991, quando continuamos as aulas apesar dos ataques iraquianos”.

Stein afirmou que esta é a maneira de mostrar que a “High Q e a sociedade israelense não serão vencidas, não importa o que acontecer, mesmo se houver ataques químicos ou biológicos, e até atômicos, nossa vida vai continuar”.

O vice-diretor disse também que sua empresa procurou despertar o interesse do público com uma campanha “original”.

A publicitária Orly Shmuckler criticou a campanha duramente.

“Fico horrorizada com o uso cínico que algumas empresas fazem do medo da população. Esta tática também não é inteligente do ponto de vista publicitário, pois provoca o antagonismo de clientes potenciais”.

Mas a High Q afirmou que desde o início da campanha houve um aumento de 30% no número de estudantes do cursinho.

Sutileza

Uma forma bem mais sutil de usar o medo da guerra na publicidade apareceu na campanha da Ikea, empresa sueca de móveis com filiais em 32 países.

Outdoors amarelos, também em pontos de ônibus de Israel, perguntam: “O que vai restar aqui amanhã?”

A pergunta claramente é associada aos temores dos israelenses de que uma guerra venha a causar uma enorme destruição no país.

Uma semana depois, os mesmos cartazes revelaram que a pergunta se referia à liquidação de inverno da empresa.

Durante uma semana centenas de milhares de israelenses ficaram expostos àquela pergunta.

A BBC Brasil perguntou a Orna Gam, responsável pelas relações públicas da Ikea, se a empresa tinha realmente a intenção de usar o duplo significado da questão.

“Sim”, disse Gam, “as campanhas da Ikea sempre são especiais e originais, desta vez a empresa decidiu introduzir um pouco de humor nessa rotina dolorosa que vivemos aqui”.

Segundo Orna, a campanha foi um sucesso e a empresa não tinha a intenção de ferir os sentimentos do público.

“Aliás, a questão que colocamos faz sentido, porque depois da liquidação não sobra quase nada nas prateleiras”, disse Orna.

Estoque de água

O ministério de Infra-Estrutura israelense instruiu a população a armazenar pelo menos 12 litros de água mineral para cada membro da família, “caso algum ataque químico ou biológico venha a contaminar a água potável do país”.

Nos supermercados, o consumo de água mineral aumentou vertiginosamente desde a publicação do comunicado do ministério.

Nas calçadas de Tel Aviv já se vêem fitas adesivas e plásticos à venda. Na Guerra do Golfo, esses materiais serviram para vedar quartos em todas as residências, com o objetivo de impedir a entrada de ar supostamente contaminado.

Os hotéis em Jerusalém informaram que durante o mês de fevereiro estarão lotados pela primeira vez em dois anos.

Por ser uma cidade sagrada para os muçulmanos, Jerusalém é considerada mais segura do que Tel Aviv, que foi a mais afetada durante a Guerra do Golfo, já reservaram quartos para essa época.

Desde o início da Intifada, o levante palestino contra Israel, os hotéis de Jerusalém estavam praticamente vazios.