Médicos recorrem a amputações para salvar vítimas do tsunami

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Publicado sexta-feira, 7 de janeiro de 2005 as 10:20, por: cdb

Pessoas que sobreviveram com ferimentos ao tsunami de dezembro na Ásia estão sofrendo amputações como consequência da demora no atendimento a eles. Ossos rompidos ou quebrados, que poderiam ter sido tratados facilmente caso as vítimas chegassem rapidamente a um hospital, estão infeccionando. Sem recursos para atender a todos, os médicos não têm outra escolha senão amputar os membros.

– É uma decisão entre a vida e o membro”, disse o anestesista Paul Luckin, tenente da Marinha australiana que operou 25 pessoas em seis dias na cidade de Banda Aceh.

– Estamos tendo uma violenta septicemia se espalhando pelos membros”, disse ele em um dos hospitais improvisados.

– A infecção é tão grave que frequentemente a única opção é amputar – disse ainda. 

Vários pacientes são submetidos a múltiplas amputações, mas para muitos deles é tarde demais – já são 12 dias desde a tragédia que matou 150 mil pessoas. Mesmo amputadas, algumas vítimas acabam morrendo de hemorragia, contaminações no sangue ou pela persistência da infecção.

Silka Amália, 4, está em uma maca segurando a sonda que lhe fornece os fluidos que tentam combater uma infecção pulmonar provocada pela ingestão de água contaminada. Ela tem sintomas de febre tifóide e chora chamando por seu pai.Perto dali, em outra maca, Abas, 13, se entretém com um carrinho. Ele tem uma perna protegida por tala e ataduras.

Nem todas as vítimas conseguem um leito. Milidhar, 6, está sentado em um banco de madeira, a atadura na testa manchada com sangue coagulado, enquanto sua mãe segura o frasco de soro intravenoso.

Muita gente teve ferimentos e fraturas ao ser atingida por destroços arrastados pelo tsunami de 26 de dezembro. Depois da tragédia, a água potável, misturada à água do mar, esgoto e lixo, se tornou um meio propício para a transmissão de infecções, agravadas pelo calor tropical.

A septicemia (infecção sanguínea) ainda é uma grande ameaça, capaz de matar ao reduzir a pressão arterial a tal nível que provoca a parada de cérebro, coração, rins e fígado. Apesar da enorme operação de ajuda humanitária, há extrema necessidade por remédios e insumos hospitalares, que normalmente se esgotam logo depois da entrega.

Muitos dos feridos mais graves estão sendo levados por via aérea para a cidade de Medan, que fica mais ao sul e foi menos atingida. Mas, assim que eles deixam Banda Aceh, novos feridos chegam, recolhidos por helicópteros norte-americanos que jogam comida para os desabrigados da região noroeste de Sumatra.

Os médicos e enfermeiros não conseguem salvar todos os seus pacientes, mas os casos de sucesso são uma grande recompensa. Irwan, 11, acaba de ser submetido a uma cirurgia para a retirada de lascas de madeira de seu corpo. A experiência pode ser definitiva na vida do menino.

– Eu estava com medo, estava sendo cortado pelo médico. Mas agora estou forte e quero me tornar médico – disse o menino.