Mapa da Violência revela dados estarrecedores

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Publicado sexta-feira, 30 de novembro de 2012 as 15:24, por: cdb

Estarrecedores, para dizer o mínimo, os dados do “Mapa da Violência – a cor dos homicídios ”, divulgado nesta 5ª feira pela Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR). O estudo foi realizado pelo Centro Brasileiro de Estudos Latino-Americanos (Cebela), pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso) e pela SEPPIR. Trata-se de uma análise de fôlego sobre os homicídios ocorridos entre 2002 e 2010 em nosso país.
 
Neste período, aponta o Mapa, tivemos uma queda de 25,5% dos homicídios da população branca. Em contrapartida, houve um aumento de 29,8% dos assassinatos na população negra. Os números falam por si: 272.422 negros foram assassinatos em oito anos – uma média de 30.269 assassinatos/ano.

Na região Norte, localiza-se o maior crescimento do número de homicídios de negros (125,5%), depois vem o Nordeste com alta de 96,7%. O relatório aponta “um pesado número de vítimas negras” no Pará, Bahia, Paraíba e Rio Grande do Norte – nos três primeiros Estados, o número de assassinatos praticamente triplicou.

Os Estados que apresentaram as maiores taxas de homicídios para cada 100 mil negros habitantes foram Alagoas (80,5), Espírito Santo (65) e Paraíba (60,5). A taxa geral de homícidios em todo o país do período chegou a 27,4 em 100 mil habitantes. O único Estado que apresentou taxa de homicídios de negros menor do que a de brancos foi o Paraná.

Já no ranking macabro das capitais com maior número absoluto de homicídios de negros destaca-se Salvador, Rio de Janeiro, Recife, Manaus, Maceió, São Paulo e Brasília. Quanto aos municípios com mais de 50 mil habitantes, a maior taxa está em Ananindeua (PA), seguida de Simões Filho (BA), Cabedelo (PB), Arapiraca (AL) e Porto Seguro (BA).
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“Pandemia de morte de jovens negros”

Agora, se os altos índices de homicídios na população negra assustam, o que dizer sobre o assassinato dos jovens negros entre 2002 e 2010? Em entrevista à Agência Brasil, o responsável pelo estudo, professor Julio Jacobo, considera que existe uma verdadeira “pandemia de morte de jovens negros no país”.

Ele conta que essas mortes são proporcionalmente 2,5 vezes maiores do que as mortes entre jovens brancos. O Mapa aponta que a maior parte dos homicídios ocorre entre os 20 e 21 anos. Mas, entre os negros, esse número aumentou 46 vezes na faixa entre os 12 e 21 anos. Na mesma faixa etária, a morte de brancos aumento 29 vezes.

Nesses oito anos avaliados, o número de homicídios de jovens brancos caiu 33%, já o de jovens negros cresceu 23,4%. “O estudo confirma que o polo de violência no país são os jovens negros e não é por casualidade. Temos no país uma cultura que justifica a existência da violência em várias instâncias. O Estado e as famílias toleram a violência e é essa cultura que faz com que ela se torne corriqueira, que qualquer conflito seja resolvido matando o próximo”, afirma o estudioso. Segundo ele, em apenas 4% dos casos de homicídios no Brasil, os responsáveis vão para a cadeia.

A morte de jovens negros ultrapassa a marca de 100 homicídios para cada 100 mil habitantes nos Estados de Alagoas, Espírito Santo, Paraíba, Pernambuco, Mato Grosso, Distrito Federal, Bahia e Pará. Em Simões Filho (BA) e em Ananindeua (PA) chegam a 400 homicídios de jovens negros/100 mil habitantes. ??

Jacobo também propõe uma comparação com os países desenvolvidos como Alemanha, Holanda, França, Polônia e Inglaterra, com taxa de homício de 0,5 jovem para casa 100 mil habitantes. “Para cada jovem que morre assassinado nesses países, morrem 106 jovens e 144 jovens negros no Brasil. Se compararmos com a Bahia, são 205 jovens negros para cada morte naqueles países; e no município baiano de Simões Filho, que tem o pior índice brasileiro, são 912 mortes de jovens negros para cada assassinato de jovem.”
 
As taxas de assassinato de negros em nosso país já superam de muitas regiões que vivem conflitos armados, conta o professor. E alerta: “há no país cerca de 8 milhões de jovens negros que não estudam nem trabalham. As políticas públicas de incorporação dessa parcela da população são fundamentais para reverter o quadro”.