Mantega assume a Economia e já pensa em cortar juros

Arquivado em: Arquivo-CdB
Publicado segunda-feira, 27 de março de 2006 as 21:25, por: cdb

Homem de confiança do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Guido Mantega chega ao comando da economia do país depois de passar pelo Ministério do Planejamento e pela presidência do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Antes disso, durante a campanha eleitoral de 2002, esse economista de fala mansa teve que suar a camisa para convencer empresários, banqueiros e investidores, tanto no Brasil quanto no exterior, que Lula não faria uma guinada na política econômica do país. Os últimos três anos mostraram que suas garantias eram verdadeiras.

Assessor pessoal de Lula desde 1993, tem sido escalado por Lula aos cargos no governo em momentos que era preciso uma solução caseira, que atendesse ao lado petista do governo sem causar ruídos maiores no quadro político geral. Foi assim quando assumiu o Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão no início do governo, depois do fracasso da primeira tentativa de incluir o PMDB no primeiro escalão do governo, antes da posse de Lula.

Depois, no final de 2004, quando a permanência de Carlos Lessa no BNDES ficou insustetável, novamente Mantega foi a solução encontrada pelo presidente. E agora, no mais grave escândalo envolvendo a área econômica do governo, com a quebra ilegal do sigilo bancário do caseiro Francenildo Costa, que contradisse declarações o ministro da Fazenda, Antonio Palocci, Mantega foi escalado mais uma vez.

Sua participação no governo, no entanto, não impediu críticas pontuais à política econômica, especialmente em relação ao nível da taxa de juros.

– Eu fico com aqueles três diretores do Copom que votaram por uma queda de 1 ponto percentual, mas que foram derrotados pelos outros seis que votaram pelo 0,75 – disse Mantega a jornalistas há duas semanas, em Nova York, ao comentar a última reunião do Comitê de Política Monetária.

Na véspera, o Copom havia reduzido a taxa básica Selic de 17,25% para 16,5% ao ano. No final de 2005, Mantega já havia criticado o “excesso de zelo” do Banco Central com relação ao controle da inflação, que teria impedido um maior crescimento econômico do país.

– Crescer 3,5% não é mais possível. Eu até esperava mais este ano (2005) porque temos condições, graças à política econômica acertada. Mas por uma decisão do Banco Central, talvez com excesso de zelo, teremos uma taxa menor – disse Mantega em novembro.

O novo ministro tem defendido com insistência uma redução maior da Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP). Na última modificação, em dezembro, o Conselho Monetário Nacional (CMN) cortou a taxa de 9,75 por cento para 9 por cento ao ano, no que pode ser classificado como uma vitória pessoal. Ele defende que “tecnicamente” há espaço para ela cair para 7 por cento.

A TJLP é a taxa que serve de referência para correção de grande parte dos empréstimos concedidos pelo BNDES. Na próxima quinta-feira, o CMN vai anunciar a nova TJLP para o trimestre abril-junho. Mantega nasceu em Gênova, na Itália, em 7 de abril de 1949, e mudou-se ainda criança para o Brasil. Formado em economia pela USP, com doutorado em sociologia do desenvolvimento pela mesma universidade, tem especialização na Universidade de Sussex, na Inglaterra. Foi professor de economia da Fundação Getúlio Vargas em São Paulo e dos cursos de mestrado e doutorado de economia da PUC-SP.

A primeira experiência de Mantega em uma administração petista foi na prefeitura de São Paulo, como diretor de orçamento de Luiza Erundina, entre 1989 e 1992, na primeira grande vitória eleitoral do PT. Na semana passada, quando crescia a expectativa sobre a queda de Palocci, Mantega procurava minimizar a eventual saída do ministro:

– A economia está robusta porque temos os fundamentos robustos. Isso não depende de uma pessoa. A situação está assim graças ao trabalho desenvolvido em três anos.