Luta contra a corrupção em Cuba

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Publicado quinta-feira, 10 de novembro de 2005 as 20:44, por: cdb

Foi uma operação fulminante. Na noite de um sábado de outubro, uma legião de jovens integrantes do destacamento dos chamados trabalhadores sociais assumiu o controle de todos os postos de gasolina de Havana, em uma operação surpresa do governo cubano de luta contra o roubo e a corrupção. Afirmando que estão assumindo uma missão que lhes foi entregue pelo governo, os jovens vêm de cidades do interior e se mobilizaram para o que consideram uma tarefa revolucionária.

Vestindo camisetas onde se lê “Mais humanos, mais cubanos”, esses jovens passaram a anotar rigorosamente todos as chapas de todos os veículos que se abastecem de diesel e de gasolina, bem como a quantidade de combustível vendido e a quantia em dinheiro de cada operação. O objetivo é ter um controle preciso durante 45 dias para comparar com as cifras anteriores dos mesmos postos de gasolina, para se apurar quanto se rouba ali.

A operação teve o caráter de uma ação de comando, muito diferente de qualquer ação administrativa normal contra irregularidades. A mobilização dos chamados trabalhadores sociais, em geral do oriente de Cuba – a região tradicionalmente mais revolucionaria da ilha – foi feita de forma secreta. A operação deve demorar 45 dias. Enquanto isso os trabalhadores regulares dos postos de gasolina foram mandados para casa, recebendo integralmente os salários.

Uma operação similar havia sido feita uns dias antes em Pinar del Rio, região mais ocidental de Cuba, quando foram descobertas diferenças importantes entre o que havia sido vendido e o que havia sido oficialmente arrecadado. As vendas irregulares se dariam a preço mais baixo do que a tabela.

A ofensiva contra as ilegalidades nos postos de gasolina de Havana é apenas uma iniciativa a mais do combate geral que Cuba desenvolve contra a corrupção. Fidel Castro, que comanda diretamente essas operações, declarou uma “guerra sem quartel” contra esses problemas, que afetam a revolução. Realizam-se auditorias especiais em 20% das empresas estatais do país, buscando “avaliar o papel dos quadros, funcionários e trabalhadores ( …) no enfrentamento das indisciplinas, ilegalidades e manifestações de corrupção administrativa”.

Essa campanha se dá no momento em que Cuba manifesta sintomas claros de ter superado o chamado “período especial em tempos de paz”, decretado com o fim da URSS e seus efeitos fulminantes sobre a economia do país. A recuperação econômica, os acordos com a Venezuela e a China, a descoberta de petróleo, assim como os avanços nos programas de educação – que visam que toda a população tenha cursos universitários – e de cultura – que tem como objetivo a formação cultural integral de toda a população – apontam para uma nova fase da revolução cubana, de que a luta contra a corrupção é uma parte, com o fortalecimento dos valores morais, com o melhor capital que sempre teve a revolução cubana.

Emir Sader, professor da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), é coordenador do Laboratório de Políticas Públicas da Uerj e autor, entre outros, de “A vingança da História”.