Lula escapa de ‘puxão de orelha’ mas não evita questionamento de juros

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Publicado terça-feira, 3 de junho de 2003 as 15:13, por: cdb

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva escapou de um “puxão de orelha” nesta terça-feira, mas não evitou o questionamento da política econômica referente à taxa de juros durante uma reunião que teve com intelectuais de São Paulo, na sede do Banco do Brasil, na avenida Paulista.

Entre os recados ouvidos por Lula estava o de que ele “exercitasse sua sensibilidade” na condução da política brasileira. Cerca de 20 professores universitários participaram do encontro com Lula, que também incluiu os ministros Antonio Palocci (Fazenda) e Luiz Dulci (Secretaria Geral), a fim de debater os rumos do governo. Na pauta principal, os intelectuais queriam ouvir as justificativas de Palocci sobre a economia que a administração petista vem imprimindo.

De acordo com a historiadora Maria Victoria Benevides, não houve embate entre o governo e os intelectuais. Antes de entrar para a reunião, a filósofa Marilena Chauí havia dito que estava lá para dar um “puxão de orelha” em Lula, sem detalhar a expressão. No entanto, de acordo com o porta-voz da Presidência, André Singer, Chauí não se inscreveu para falar.

Maria Victoria, escolhida como porta-voz do grupo, disse que todos os inscritos para debater com o presidente se centraram na questão dos juros, mas não pressionaram, nem mesmo sugeriram uma queda rápida da taxa.

– O que nós discutimos é o que vem daqui para frente, na medida em que se compreende que essa política de juros é uma necessidade de uma certa conjuntura – disse.

A historiadora afirmou que “sempre esperamos que tudo aconteça muito rápido”, mas que é preciso saber diferenciar o “tempo da reflexão” e o “tempo da ação”. De acordo com ela, todos saíram com uma “expectativa bastante positiva”, certos de que “estamos no caminho do crescimento”.

Maria Victória contou que Palocci expôs a “gravidade da conjuntura” (econômica), mas que, ao mesmo tempo, reafirmou sua confiança nos rumos atuais do País. “Entre o desejo e o mínimo de racionalidade há um espaço grande”, acrescentou a professora.

Ela afirmou que ninguém deu um “puxão de orelha” no presidente, o que contrariou até mesmo as expectativas do próprio Lula. Segundo ela, o petista esperava uma postura mais “brava” dos intelectuais.

Para a historiadora, o governo ainda está em uma fase de transição no que diz respeito à política macro-econômica e ainda não teve tempo de mostrar mudanças mais concretas. Ela disse ainda que Lula recorreu diversas vezes à linguagem metafórica que costuma usar em seus discursos. Entre as metáforas estava a comparação entre o crescimento econômico e o tempo de plantação e colheita dos frutos de uma árvore.

O jurista Fabio Konder Comparato, que já fez críticas à gestão de Lula, procurou um caminho mais diplomático durante a reunião. Ele pediu que Lula “exercitasse sua sensibilidade” na direção dos grandes assuntos do país. No entanto, o jurista – em rápida entrevista aos jornalistas – não deixou claro se estaria faltando essa sensibilidade ao presidente atualmente.

Encontros como esse devem ocorrer novamente ao longo do governo de Lula, mas o próximo ainda não foi marcado. O grupo de intelectuais, historicamente ligado ao PT, sempre esteve em contato direto com o presidente.