Lula e sua opção por Davos

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Publicado sábado, 27 de janeiro de 2007 as 11:39, por: cdb

Enquanto escrevo este artigo, o Presidente Lula deve estar terminando de preparar suas malas com o objetivo de embarcar para a cidade de Davos, na Suíça. E os leitores desta agência devem estar acompanhando, há quase uma semana, a cobertura especial aqui realizada sobre o evento realizado em Nairóbi, no Quênia.

Em Davos realiza-se, anualmente, um importante encontro da nata da elite financeira internacional, com presença de banqueiros, megainvestidores, dirigentes de grandes corporações multinacionais, dirigentes dos organismos multilaterais, representantes da áreas econômicas dos governos, chefes de Estado, entre outros. Ali são realizados debates e apresentadas avaliações sobre as perspectivas da economia em escala internacional, com uma enorme quantidade de eventos paralelos voltados às potencialidades de aplicações e de investimentos mundo afora. Trata-se do Fórum Econômico Mundial (FEM), que se reúne nos Alpes suíços há mais de três décadas.

Na contracorrente desse evento, os representantes dos movimentos sociais e populares, também em escala internacional, conseguiram construir uma alternativa política e institucional. Trata-se do Fórum Social Mundial (FSM), que se reúne, também anualmente, na mesma semana que o FEM, de preferência em algum País fora do circuito dos ricos. É amplamente reconhecida a importante contribuição oferecida por instituições, intelectuais, políticos e ativistas brasileiros para a consolidação do FSM como evento alternativo, em que se procura mostrar que “um outro mundo é possível”, em contraposição às políticas sugeridas por Davos.

Presença brasileira no FSM
Não por acaso, simbolicamente, atores emblemáticos como o próprio Lula, o PT, a cidade de Porto Alegre (sede do FSM por vários anos), a proposta do orçamento participativo, o MST, dentre tantas outras marcas “genuinamente brasileiras”, alcançaram significativa projeção internacional por meio de tais encontros. Não é difícil de se imaginar o grau de expectativa gerada nesses meios desde o dia de 1o. de janeiro de 2003, quando se deu a troca da faixa presidencial no Palácio do Planalto e abriu-se uma possibilidade concreta de transformar aquelas propostas em políticas públicas efetivas, em um país considerado estratégico no cenário internacional.

Até mesmo este espaço na internet foi fruto desse amplo movimento. Na seção “quem somos” da Agência Carta Maior, o leitor verificará que ela se apresenta como “uma publicação eletrônica multimídia que nasceu por ocasião da primeira edição do Fórum Social Mundial, em janeiro de 2001, em Porto Alegre. A escolha da data não foi casual. Os princípios editoriais que norteiam nosso trabalho estão afinados, entre outras coisas, com o ideário que anima o movimento internacional que deu origem ao FSM.”

Não se trata aqui, neste artigo, de realizar um balanço das atividades do FSM ou negar as dificuldades enfrentadas pelos organizadores no que se refere à busca um consenso quanto aos rumos e ao futuro do mesmo. É fundamental, porém, reconhecer seu mérito e sua importância para a definição dos caminhos do movimento social e progressista em escala mundial. Troca de experiências, intercâmbio de informações, debates de propostas, enfim há uma multiplicidade de funções essenciais que ainda estão sendo cumpridas pelo evento.

Malabarismo político
Há quatro anos que Lula vem tentando se equilibrar, num difícil exercício de malabarismo político, entre estes dois mundos. Em um dos anos, foi aos dois eventos. Em outros, optou por não ir a nenhum dos dois. Nada a estranhar. Afinal, desde 2003 ele exerce uma função nada desprezível no campo dos arranjos diplomáticos internacionais: chefe de Estado de uma Nação com peso razoável no concerto das demais. Pode-se compreender as razões pelas quais ele tenha concordado com as sugestões que lhe foram dadas, no sentido de não manifestar nenhuma opção explícita de exclusividade pelo FSM, inclusive com o intu