Lula, a política externa e a ordem mundial

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Publicado domingo, 5 de novembro de 2006 as 11:55, por: cdb

A acachapante vitória política de Lula da Silva no segundo turno das eleições abre perspectivas de debate num campo de ações muito pouco visitado durante os debates eleitorais: a política externa do Brasil. No seu discurso de agradecimento pela avalanche de votos recebidos, o Presidente Lula da Silva destacou largamente o êxito da política externa brasileira e sinalizou para sua continuidade e aprofundamento.

O espaço da política externa para o povo brasileiro
Apenas de forma parcial, descontextualizada, as questões relativas à política externa do Brasil foram levadas para o debate eleitoral. O candidato de oposição procurou, algumas vezes, acusar o Ministério de Relações Exteriores, sob a dupla Celso Amorim/Samuel Pinheiro Guimarães, de ter levado o Brasil ao “isolamento” ou uma pretensa humilhação frente à Bolívia de Evo Morales. Outras vezes acusou-se o governo de fazer uma “opção errada e ideológica” por países pobres e irrelevantes – houve até acusações contra um número exagerado de embaixadas na África! – abandonando os ricos mercados dos Estados Unidos e União Européia.

No calor dos debates – e de forma mesmo mesquinha – houve uma condenação do AeroLula, como inútil e dispendioso, sem sequer saber que o avião é uma expressão de prestígio e força da política externa do Brasil. O AeroLula já transportou presidentes de vários países – Peru, Paraguai, Bolívia, Angola, etc… – facilitando acordos e contratos que revertem em renda e emprego para o país.

Numa única viagem de campanha ao exterior, o candidato da oposição dirigiu-se às grandes economias do Norte do Atlântico como sendo o bom interesse do país. Deixava entrever um grande desinteresse, e despreparo, em relação ao Mercosur, aos países do Ibas (Índia, Brasil e África do Sul ), além de desconhecimento total da agenda e da relevância do G-20 e G-100.

Acerca do fracasso da Rondada de Doha, malgrado os esforços do chanceler Amorim, reinou total silêncio.

O dano, entretanto, não foi relevante. Como é de se esperar – aqui ou nos Estados Unidos -, o tema política externa não faz ninguém ganhar eleições. É verdade que, nos Estados Unidos, quando enfrentando uma guerra impopular, como Johnson em face do Vietnã, em 1968, ou Bush em fase do Iraque, agora em 7/11/2006, pode fazer perder…

A Rodada de Doha e os subsídios
A insistência da oposição, incluindo-se aí alguns colunistas da grande imprensa, embaixadores aposentados e alguns especialistas de ocasião, em condenar a política Sul-Sul – se isso é mesmo uma expressão com algum conteúdo programático! – resvalava para a incompreensão total dos mecanismos da grande política internacional.

Até o final de 2005 havia sobre a mesa três grandes negociações em curso: a Alca – já sem adesão das grandes economias sul-americanas e com um certo enfado dos EUA, muito mais interessado em negociar TLC bilaterais; havia a negociação do Acordo-Quadro Mercosur-UE, que culminaria numa reunião esvaziada em maio deste ano em Viena; e as negociações decorrentes da Rodada de Doha, todas estas diferentes agendas voltadas para um ponto em comum: ampliação do comércio mundial através da liberação dos mercados agrícolas, de serviços e de compras internacionais. O mercado de bens industriais, já bastante flexível, deveria vir a reboque de tais acordos.

As condições de negociação e de finalização de acordos evoluíram muito rapidamente. Já na Cumbre das Américas em Mar del Plata, no final de 2005, a Alca estava irremediavelmente superada. O acordo envolvendo 34 países mostrava-se ambicioso demais e assimétrico demais para poder ser assinado. Embora para países de pequena economia, dominantemente agrárias, e com esteio na remessa de capitais dos residentes nos EUA – tais como El Salvador, Guatemala ou Honduras -, o acordo fosse óbvio e interessante, para demais casos poderia significar um desmonte industrial importante. Este era o caso da Argentina, Venezuela e B