Ligações impróprias do presidente do Banco Central

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Publicado quinta-feira, 23 de janeiro de 2003 as 12:32, por: cdb

Cena 1 – Vem à tona que o presidente do Banco Central no governo Fernando Henrique Cardoso recebe, a título de aposentadoria, US$ 750 mil anuais, de um banco americano. É divulgado, também, que tal banco tem aplicações em títulos brasileiros e seus lucros podem ser influenciados de forma decisiva por decisões do BC.

Cena 2 – Na primeira reunião do Conselho de Política Monetária (Copom) que se realizou depois de as informações acima terem vindo a público, é aprovada uma elevação dos juros. Tal decisão contrariou as expectativas de quase todos na sociedade. Contrariou, também, as previsões da imensa maioria dos bancos, que jogaram suas fichas na manutenção da taxa de juros anterior. Na contra-mão esteve o banco que paga a aposentadoria do presidente do BC, que lucrou com a aposta.

Diante desse quadro, que hipoteticamente se teria se dado no governo Fernando Henrique, qual seria a reação do PT? Ninguém duvida de que, no mínimo, suas bancadas na Câmara e no Senado exigiriam o afastamento imediato do presidente do BC.

Pois bem, a situação descrita acima ocorreu. Só que não no governo FHC. Tudo se passou esta semana, em pleno governo Lula.

Não se trata de fazer qualquer acusação à honestidade de Henrique Meirelles, o presidente do BC. Mas salta aos olhos que não é recomendável ter-se em cargo da natureza do que ele ocupa alguém que mantenha a relação que mantém com um banco.

É verdade que Lula e o PT estão tendo um cuidado especial com o chamado “mercado”. Esse cuidado chega a ponto de o ministro Antônio Palocci, repetidamente, oferecer superávits primários maiores do que os aceitos pelo governo Fernando Henrique, para dar todas as garantias aos investidores. Isso tudo, mesmo depois de o FMI e os credores internacionais dizerem que estão plenamente satisfeitos com os sacrifícios atuais.

O comportamento de Palocci vem sendo, com razão, comparado por muitos ao de seu antecessor, Pedro Malan. Já houve até quem, frazendo graça e aproveitando a onda de clonagens de seres humanos no noticiário, tenha se referido a clonagem de cérebro de um para o outro.

Francamente, tenho dúvidas se este é o melhor caminho para quem venceu a eleição com o compromisso de mudar o modelo econômico. Mas, vá lá, digamos que seja. Ainda assim, cabe a pergunta: este caminho implica, necessariamente, aceitar a relação mantida pelo presidente do BC com o BankBoston? Ou não estará havendo, aí, um claro exagero?