Líder do MST compara desocupação do Pinheirinho à ação policial na fazenda da Cutrale

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Publicado quarta-feira, 25 de janeiro de 2012 as 12:29, por: cdb

O líder do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), João Pedro Stédile, comparou a reintegração de posse da área ocupada pela comunidade do Pinheirinho, em São José dos Campos (SP), à ação policial contra militantes do MST durante a ocupação da Cutrale em 2009.

Pinheirinho
Em Pinheirinho moradores comparam a reintegração de posse com a ação policial contra militantes do MST em 2009

Desde domingo , a área vem sendo alvo de ações da Polícia Militar de São Paulo para a reintegração de posse. Cerca de 1,8 mil homens da PM foram acionados para retirar as 9 mil pessoas que viviam há sete anos na área. O terreno integra a massa falida da empresa Selecta, do investidor Naji Nahas. O episódio foi marcado por cenas de violência contra os moradores.

Em 2009, trabalhadores rurais ligados ao MST ocuparam a Fazenda Capim, utilizada pela Cutrale para a monocultura de laranja. O MST acusava a empresa de grilagem. Na ocasião, nove militantes foram presos e famílias de assentados foram ameaçadas pela polícia em acampamentos.

– Essa situação do Pinheirinho é uma vergonha, que está deixando toda a população brasileira indignada. Armaram uma arapuca para dar a lição de que pobre não tem direito a lutar. Fizeram isso contra nós naquele episódio da Cutrale, numa situação também ilegal, porque a área era grilada pela Cutrale, está registrada em cartório como da União–  lembrou nesta quarta-feira, antes de participar de uma atividade do Fórum Social Temático (FST).

Stédile disse que os dois episódios estão ligados à visão patrimonialista de parte da elite brasileira, que influencia decisões de alguns governos, que, segundo ele, contrariam a Constituição ao priorizar a propriedade privada em detrimento de direitos fundamentais.

– As elites só pensam em patrimônio, mas não é isso o que diz a nossa Constituição. O primeiro direito que deve ser preservado é a vida das pessoas, e o segundo é o direito as condições de sobrevivência, ou seja, trabalho, moradia, educação e saúde. Depois é que vem o direito de propriedade, vários capítulos adiante–  comparou.

A situação dos moradores do Pinheirinho também foi lembrada na terça-feira no FST durante a marcha de abertura do evento. Além de faixas de protesto contra a violência policial na desocupação, manifestantes usavam adesivos com o slogan “Somos todos Pinheirinho”.


Famílias encontram casas demolidas ao ir buscar móveis no Pinheirinho

O trabalho de retirada de móveis das famílias que viviam no terreno do Pinheirinho tem reservado surpresas para muitos moradores. Apesar de a maioria ter conseguido retirar seus pertences por meio do cadastro feito pela Prefeitura e apoio da Polícia Militar e de oficiais de Justiça, alguns encontraram suas casas já demolidas ou vazias quando chegaram para fazer a retirada. Segundo a Prefeitura, mais de cem famílias já haviam retirados seus pertences das casas até a noite de segunda-feira.

Foi o caso da doméstica Luciane Rebeniker. Na manhã de terça-feira, ela foi até sua antiga casa buscar seus móveis, mas encontrou o imóvel destruído. O local tinha dois quartos, sala e cozinha, onde ela vivia com o irmão cadeirante, o marido e seus dois filhos. “É muito difícil. Até segunda-feira eles não deixaram a gente entrar, e meus móveis estavam todos dentro de casa. Quando é terça-feira, a gente encontra desse jeito, tudo demolido”, contou. “Agora a gente não sabe para onde foi, diz que tiraram tudo, mas tem cadeira de rodas no meio dos escombros.”

Ela contou que seu marido foi orientado a ir ao local às 6h desta terça para retirar os móveis. Quando chegaram, estava tudo demolido. Eles conseguiram retirar apenas poucos pertences, como uma TV e um colchão. “Ficou documento, ficou tudo. Não sei onde as coisas estão, agora vou correr atrás.”

PM usa gás pimenta e cassetetes contra manifestantes nesta quarta-feira

A Polícia Militar usou gás pimenta e cassetetes contra manifestantes que protestavam na praça da Sé na manhã desta quarta-feira. O grupo é contra a reintegração de posse em Pinheirinho e contra a operação na cracolândia, no centro de São Paulo.

Uma parte dos 800 manifestantes, cercou e chutou carros de autoridades que participavam da missa na catedral da Sé pelo aniversário da cidade, comemorado nesta quarta-feira. O prefeito Gilberto Kassab (PSD) teve que sair pelos fundos da igreja para evitar a confusão.

Após a saída do prefeito do local, um grupo de manifestantes tentou agredir ainda uma equipe da Rede Globo que estava no local. Um outro grupo que participava do protesto, no entanto, tentou interromper a confusão e fez com que os manifestantes dispersassem.

Além de Kassab, também estavam no local os pré-candidatos a prefeitura Guilherme Afif (PSD), Andrea Matarazzo (PSDB) e Gabriel Chalita (PMDB). O governador Geraldo Alckmin (PSDB) era esperado, mas não compareceu.

Após a confusão, os manifestantes seguiram em passeata em direção à prefeitura. De acordo com a CET (Companhia de Engenharia de Tráfego), as ruas da região estão sendo bloqueadas com a passagem dos manifestantes.

As ações da Polícia Militar na cracolândia e na favela Pinheirinho têm sido criticadas pelo uso da violência contra viciados e moradores. No caso da cracolândia, a atuação da polícia é investigada pelo Ministério Público.

PROTESTO

O protesto, intitulado “Especulação extermina: basta de trevas na Luz e em São Paulo!”, também faz menção à situação das famílias que viviam na favela do Moinho, no centro de São Paulo, atingida recentemente por um incêndio.

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