Lições para a América Latina

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Publicado quarta-feira, 27 de junho de 2012 as 08:21, por: cdb

O golpe de Estado no Paraguai travestido pelo “ritual institucional” traz importantes lições para as forças populares comprometidas com a transformação social

 

27/06/2012

 

Editorial da edição 487 do Brasil de Fato

 

O recente golpe de Estado no Paraguai travestido pelo “ritual institucional” traz importantes lições para as forças populares comprometidas com a transformação social. Como ponto de partida, constata-se que a América Latina segue sua luta contra o colonialismo contemporâneo. O conteúdo do neocolonialismo se expressa em alguns elementos da herança colonial, ou seja, nas estruturas dos países latino-americanos, particularmente na via conservadora do processo de formação do capitalismo marcado pela ausência de reformas estruturais na sociedade. Além disso, destaca-se o modelo econômico dependente e uma classe dominante sem projeto de nação, subordinada aos interesses do imperialismo e comprometida com formas políticas autocráticas de dominação de classe. No campo da cultura não é diferente, o neocolonialismo impõe a adoção servil de modelos externos e trava uma luta ideológica violenta contra tudo que é ao mesmo tempo nacional e popular. Tudo isso atualiza o capitalismo dependente como uma marca da formação social latinoamericana.

Atualmente, o capitalismo na sua fase neoliberal representa os interesses neocoloniais. Desde 1998, com a eleição de Hugo Chávez na Venezuela, os povos latino-americanos vêm rejeitando o neoliberalismo em diversos países. Com a atual crise econômica mundial, também a classe trabalhadora europeia ensaia uma rejeição à selvageria capitalista neoliberal. Diante desse cenário, uma correta estratégia política de transformação social dispensa ingenuidades. Dispensa a ingenuidade de acreditar em qualquer compromisso da classe dominante com a democracia, mesmo que burguesa e formal. Democracia sim, contanto que alinhada aos interesses imperialistas do capital financeiro e do latifúndio. Dispensa a ingenuidade de não se preparar adequadamente para a reação das classes dominantes e do imperialismo, inimigo principal da humanidade.

A tragédia paraguaia, alerta para um flanco aberto, um erro crasso no processo de condução das mudanças em curso na América Latina. O inimigo não é ingênuo e explora o elo frágil do bloco de governos que foram eleitos a partir de 1998. Esta fragilidade reside no fato de que, com exceção da Venezuela e da Bolívia, os governos de esquerda latino-americanos não estão educando política e ideologicamente as massas. Estamos perdendo uma oportunidade histórica. Mesmo que esteja sendo constituída uma resistência ao golpe no Paraguai, é doloroso admitir que o povo não saiu em massa às ruas para defender o governo. Isso ocorreu não pelo fato do povo paraguaio concordar com o golpe, mas sim pela ausência de um projeto político de referência. O que ocorreu foi o protesto de parte da base social dos movimentos populares. Insuficiente. Claro que esse processo de educação política não depende somente da vontade de governos, mas também de correlação interna.

A questão fundamental: o que polariza e movimenta as classes sociais, o que educa política e ideologicamente as massas são projetos políticos pautados em reformas estruturais na sociedade. São estas reformas que dialogam com o nível de consciência das massas, resolvem seus problemas concretos e que são imprescindíveis para a constituição de força social que sustente um projeto político de mudanças estruturais na sociedade. O próprio governo deve buscar compensar a ausência de correlação forças favorável no campo institucional com mobilização popular. Nesse sentido, não é um bom exemplo para os países latino-americanos o neodesenvolvimentismo descolado de reformas estruturais disseminado pelo Brasil. Isto porque ao não pautar as reformas estruturais não educa política e ideologicamente as massas, abrindo um abismo entre o governo e as massas. A consequência é que esses governos, sem forças sociais concretas e conscientes da necessidade da mobilização, ficam excessivamente dependentes de correlações de forças institucionais. Aliás, em 2005, com a chamada crise do “mensalão” por muito pouco não passamos por golpe de Estado pela “via institucional”.

Não são incomuns os exemplos históricos nos quais projetos de mudanças dessa natureza impulsionaram as classes populares a defenderem governos que materializaram tais projetos. Temos o exemplo clássico do Chile. O processo de mudanças em curso na Bolívia e na Venezuela também é um exemplo pautado em reformas estruturais e por isso está mais seguro, pois está formando uma força social educada política e ideologicamente e referenciada num projeto de mudanças estruturais.

O golpe de Estado no Paraguai, portanto, lança a necessidade de fazer esse ajuste no processo de condução das mudanças em curso na América Latina. Ou se aprofunda esse processo pautando as reformas estruturais, ou então o imperialismo estadunidense vai continuar explorando a ausência de forças sociais prontas para se mobilizar, levando a disputa para o campo institucional, particularmente através dos parlamentos que geralmente são vulneráveis ao poder econômico e favorecem a ofensiva da classe dominante.