Líbano pára e faz luto por Hariri

Arquivado em: Arquivo-CdB
Publicado terça-feira, 15 de fevereiro de 2005 as 08:56, por: cdb

O Líbano parou nesta terça-feira em luto pelo ex-primeiro-ministro Rafik al-Hariri, assassinado na explosão de um carro-bomba, num atentado que colocou o país em crise política e trouxe à tona memórias da guerra civil (1975-1990). Escolas, lojas, instituições públicas e privadas fecharam e o Exército libanês entrou em alerta no começo do luto oficial de três dias.

Hariri, muçulmano sunita bilionário que organizou a reconstrução pós-guerra, foi morto nesta segunda-feira quando seu comboio passava por um luxuoso bairro de hotéis. Ele havia renunciado ao cargo de premier em outubro do ano passado.

Irritado pela insistência da Síria de ampliar o mandato de seu rival político, o presidente Emile Lahoud, Hariri aderiu a líderes da oposição nos pedidos pela retirada de tropas sírias do país e pelo fim da interferência de Damasco nos assuntos libaneses.

Líderes da oposição disseram que a Síria, que mantém 14 mil soldados no Líbano, tem responsabilidade pela morte de Hariri. Em comunicado, eles exigiram a renúncia do governo e a retirada das tropas sírias. Mas os políticos não chegaram a acusar Damasco ou governo libanês apoiado pela Síria de envolvimento direto.

O líder druzo Walid Jumblatt, que já pediu a retirada das tropas sírias, disse a repórteres:

– Apesar do sangue e da tristeza, queremos dizer a eles: ‘Não queremos nada de vocês, saiam, deixem-nos, basta de sangue – declarou.

Jornais libaneses manifestaram temor de que o assassinato do ex-primeiro-ministro de 60 anos desestabilize o país e abra as portas para mais intervenção internacional.

– A preocupação no momento é como impedir o Líbano de cambalear para a beira do abismo – afirmou o jornal Daily Star, de língua inglesa, em editorial na capa.

– As lideranças em Damasco e Beirute têm que agir com muita rapidez para evitar a intervenção internacional – disse ainda o jornal.

Pelo menos 14 pessoas morreram e 135 ficaram feridas na explosão, a maior do Líbano desde o fim da guerra civil. Um grupo islâmico desconhecido disse em vídeo exibido pela televisão Al Jazeera que realizou o ataque suicida contra Hariri – que também tinha cidadania saudita – porque ele apoiava a família real saudita.

Horas depois, forças de segurança libanesas disseram que entraram na casa de um homem identificado como um palestino que leu a declaração sobre a autoria do ataque. Uma fonte de segurança disse que Ahmed Tayseer Abu Adas não estava na casa. O funeral de Hariri está programado para esta quarta-feira.

Manifestantes jogaram nesta segunda-feira pedras contra a sede do partido Baath, que governa a Síria, em Beirute e queimaram fotos no presidente sírio, Bashar al-Assad. O secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Kofi Annan, disse esperar que a morte não reacenda a guerra civil. O presidente dos EUA, George W. Bush ficou “chocado e furioso”, segundo a Casa Branca.

Os EUA disseram que vão consultar o Conselho de Segurança da ONU sobre medidas punitivas. O conselho planejou uma reunião formal nesta terça-feira sobre o assassinato, assim como sobre sua resolução que exige a saída das tropas sírias do Líbano. A tensão política já vinha aumentando no Líbano com a campanha para as eleições parlamentares de maio, vistas como um teste para a influência síria.