Lagos deixa governo com alto índice de aprovação

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Publicado terça-feira, 13 de dezembro de 2005 as 22:59, por: cdb

O presidente do Chile, Ricardo Lagos, está terminando seu mandato com imagem positiva superior a que possuía quando assumiu o cargo, em março de 2000. Aos 67 anos, Lagos é aplaudido por onde passa e foi chamado de “lindo”, durante um programa de televisão exibido às vésperas do primeiro turno das eleições.

– É meu pai já recebe até cantada – brincou o filho do presidente, Ricardo Lagos Weber.

Ricardo Lagos entrega o cargo em março e será lembrado, segundo analistas, pelas obras públicas que realizou e pelos acordos comerciais bilaterais que assinou com grandes potências como os Estados Unidos e a China.

Além da abertura ele promoveu uma reforma constitucional, eliminando quase todas as chamadas “amarras” da era de Augusto Pinochet, incluindo cadeiras biônicas para o Senado. Em seu período, também houve o fim da proibição do divórcio no país e a abertura de documentos secretos dos tempos da ditadura. A frase mais ouvida, entre integrantes do governo, é a de que Lagos deixa um país “mais tolerante”. País de maioria católica, o Chile foi um dos últimos da região, a fazer campanha pelo uso de preservativo para evitar a Aids.

Para alguns analistas, as mudanças feitas por Lagos tornarão muito difícil que seu sucessor consiga realizar tantas mudanças como ele. O jornal El Mercúrio, o mais influente do país, diz que dificilmente outro presidente poderá igualar Lagos porque seu mandato ocorreu num momento de expansão econômica mundial, favorecendo a venda dos produtos chilenos ao mundo (vinhos, frutas e outros). Mas o jornal chileno diz ainda que Lagos estabeleceu as principais obras públicas para os próximos anos, com contratos que durarão anos e que deixará adiantadas as negociações dos próximos acordos bilaterais de comércio. E que também reduziu o mandato presidencial de seis anos para quatro anos. “Assim, é quase impossível que seu sucessor consiga fazer o que ele fez em seis anos”, escreveu o jornal chileno.

Analistas do país recordaram que sua idéia inicial era permitir a reeleição, que não está prevista na Constituição. Mas ele não conseguiu maioria no Congresso Nacional para aprovar a medida. Os mais críticos dizem que o capital político de Lagos inclui a redução dos índices de pobreza, mas, como ele mesmo reconheceu, ficará para o sucessor tentar eliminá-lo ou reduzi-lo ainda mais. Atualmente, 18% são pobres.

– Um senhor me abraçou e me disse: ‘Presidente, sou um aposentado’. Sei o que ele quis me dizer, que não foi atendido por minhas medidas. Ainda há muito a fazer pelos excluídos no Chile – disse, emocionado, assim que votou no primeiro turno das eleições presidenciais.

O sistema de previdência social do Chile, baseado nas chamadas AFPs (Administradoras de Fundos de Pensão), tem merecido críticas da oposição e da situação, que exclui, por exemplo, autônomos ou aqueles que, por falta de emprego, interromperam a contribuição. Além desta pauta, ficará para o próximo presidente chileno a “amarra” deixada por Pinochet e tão criticada por Lagos – o chamado sistema “binominal” para o pleito legislativo, que exige a eleição de um candidato de cada partido por cada lugar, matemática que na sua opinião prejudicou a base governista, chamada de “Concertación”. Essa, aliás, é outra herança de Lagos.