Jan Kregel: ‘Sem queda de juros, não haverá ciclo virtuoso’

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Publicado domingo, 26 de março de 2006 as 17:52, por: cdb

A escola de pensadores mais lembrada pelo economista Jan Kregel, chefe do Departamento de Relações Econômicas e Sociais (Desa) da Organização das Nações Unidas (ONU) e professor da Universidade de Bolonha, é a da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), órgão da ONU fundada pela convicção de pessoas como o argentino Raúl Prebisch e o brasileiro Celso Furtado, falecido em 2004.

Kregel repete sempre que pode a máxima cepalina de que o crescimento econômico é fundamental para o desenvolvimento, mas não é suficiente. Ele foi um dos palestrantes internacionais do seminário ocorrido ma última quarta-feira (22) a partir da proposta inicial da Agenda Nacional de Desenvolvimento (AND), construída no âmbito do Conselho Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES), órgão consultivo ligado à Presidência da República.

A presença de Kregel no Brasil coincidiu com o lançamento, por parte da Cepal, de um relatório que propõe a construção de um novo pacto para a proteção social que busque o cumprimento dos direitos sociais e que considere as desigualdades e restrições orçamentárias como limitações que precisam ser reconhecidas e enfrentadas. O documento foi apresentado publicamente na cerimônia de abertura das reuniões ministeriais da 31a sessão da Cepal, realizado em Montevidéu, no Uruguai, com a presença do presidente Tabaré Vazquez.

O trabalho é calcado na sustentação do Desenvolvimento com respeito aos direitos sociais. A América Latina, de acordo com o atual secretário-executivo da Cepal, José Luis Machinea, padece hoje de dois males crônicos: crescimento baixo e volátil e a níveis extremamente altos de desigualdade social e uma pesada persistência de elevados níveis de pobreza e indigência.

Paralelamente, o economista-chefe do Desa sublinha o baixo aproveitamento de recursos domésticos por parte do Brasil, mas não deixa de exibir a coincidência das iniciativas de diversas iniciativas verde-amarelas com as bases da agenda das Nações Unidas, como os programas Bolsa Família e Fome Zero, além da iniciativa em parceira do presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva com o presidente da França, Jacques Chirac, que vem sugerindo formas – como a taxa sobre compra de bilhetes aéreos – para financiar o combate à fome no mundo. Preocupada com o tema da participação da sociedade civil no processo de definição de escadas para o desenvolvimento, a ONU firmou até um memorando de programa piloto para expandir a experiência do CDES para outros países da América Latina. Leia a seguir trechos da entrevista com Jan Kregel.

– Que mensagem o Sr. veio trazer aos integrantes do Conselho Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES) e ao governo brasileiro neste seminário?

– Primeiro: o projeto de estabilização da economia brasileira ainda está pela metade. É preciso direcionar políticas para crescer, aumentar a renda, criar mais empregos e reduzir a desigualdade. Já foram dados passos na redução da dívida externa (que diminui a dependência em relação ao capital externo). Mas isso foi feito à custa do aumento da dívida interna. É importante notar que existe uma diferença significativa. Há espaço de sobra para a redução da taxa de juros, independentemente da relação dívida/PIB. Se olharmos os exemplos de outros países, veremos que as dívidas internas não necessitam de taxas de juros tão altas.

Segundo: depois de reduzir a dívida externa, é preciso reduzir a dívida interna. E isso só pode se dar com uma queda substancial da taxa de juros. O presidente do BNDES, Guido Mantega, insinuou que uma queda de dois pontos na taxa real de juros pode trazer resultados melhores para economia. Precisa ser mais. O pagamento de despesas financeiras chega a 8% do PIB ao ano. O superávit primário tem beirado 5%. É preciso cobrir essa diferença de 3% do PIB – só assim a dívida interna começará a cair. Sem que esse passo seja dado, o ciclo virtuoso apresentado por Mantega não se ef