Jack Straw diz que o caso do dossiê é uma ‘zorra’

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Publicado quarta-feira, 25 de junho de 2003 as 09:16, por: cdb

O ministro do Exterior britânico, Jack Straw, admitiu diante da Comissão de Assuntos Internacionais do Parlamento – ao defender a publicação dos relatórios de inteligência sobre o caso – que o dossiê sobre as supostas armas de destruição em massa no Iraque é “duvidoso” e “constrangedor”.

Straw estava respondendo perguntas sobre as alegações de que o governo britânico maquiou o relatório.

O ministro do Exterior britânico chegou a pedir desculpas para o estudante, cuja família ainda estava no Iraque, que teve partes da sua tese, com algumas modificações, divulgadas no dossiê sem a sua autorização.

Ele admitiu ainda que o caso foi uma “zorra completa”.

Sem reclamações

No entanto, ele disse que, até onde foi informado, não houve reclamações de agentes de inteligência sobre o primeiro dossiê sobre armas de destruição em massa, publicado em setembro de 2002.

Straw refutou ainda as acusações de que o governo teria vendido a guerra ao povo britânico usando falsos argumentos.

– Alguns dos nossos críticos tentaram pôr palavras e critérios na nossa boca que nunca foram ditos – afirmou.

– Não usamos as palavras ‘imediato’ ou ‘iminente’ (sobre o perigo representado pelas armas). Não usamos isso porque os indícios claramente não justificavam isso. Dissemos, sim, que havia uma ameaça ‘atual e grave’ e mantenho isso completamente – acrescentou Straw.

Um comentário do analista de Defesa da BBC, Andrew Gilligan, contribuiu para incendiar a polêmica sobre a defesa, feita pelo governo britânico, da necessidade da guerra.

Em maio, Gilligan disse que um alto funcionário do governo britânico havia lhe contado que o dossiê sobre as armas iraquianas havia sido ” maquiado” a pedido da cúpula.

Ataque rápido

As supostas mudanças incluiriam ressaltar a importância das alegações de que o Iraque tinha capacidade de lançar um ataque dentro de 45 minutos.

Straw disse que a “alegação dos 45 minutos” recebeu mais destaque nos últimos tempos do que na época em que o dossiê foi divulgado.

E ele classificou ainda de “totalmente falsas” as acusações de interferência do gabinete do primeiro-ministro, afirmando que uma comissão de inteligência havia endossado o documento.

– Nunca houve qualquer pedido de ‘maquiar’ qualquer dossiê e, seguramente, não houve para o primeiro – disse Straw.

Ele disse ainda não ter qualquer dúvida sobre a precisão das informações contidas no primeiro dossiê.

– Algumas delas foram provadas pelos acontecimentos. Nenhuma foi desmentida – afirmou.

Justificativa

O ministro insistiu que havia “uma enorme quantidade indisputável de indícios” justificando a ação contra o Iraque.

Ele comentou ainda que as fontes britânicas não tiveram qualquer participação na coleta das informações, que mais tarde foram provadas falsas, de que o Iraque teria tentado comprar urânio na África.

O segundo dossiê polêmico, divulgado em fevereiro, continha grandes trechos de uma tese de um estudante, retirada da internet.

Straw disse que isso era “completamente insatisfatório” e que esse “dossiê duvidoso” não havia sido verificado pela inteligência britânica.

Ele afirmou ainda que os problemas de precisão do documento, que, segundo Straw, deveria servir mais como material de apoio para os jornalistas, “não vêm tanto ao caso”.

“Claro que foi constrangedor para o governo, e algumas lições foram aprendidas”, completou.

Dois ex-colegas de Straw no gabinete de Tony Blair, Clare Short e Robin Cook, já afirmaram que o público foi iludido pelo governo.