Itamaraty reage a insulto a Furlan

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Publicado sexta-feira, 21 de janeiro de 2005 as 18:45, por: cdb

O Ministério das Relações Exteriores tomou nesta sexta-feira a iniciativa de reagir, com um dia de atraso, aos insultos do novo presidente da União Industrial Argentina (UIA), Hector Méndez, ao ministro brasileiro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Luiz Fernando Furlan. Méndez chamou Furlan de “criador de galinhas” – uma expressão que remete à origem empresarial do ministro, que foi presidente da Sadia, mas que conta também com uma pesada conotação pejorativa em espanhol.

Para o Itamaraty, este tipo de declaração não contribui para as relações bilaterais. O porta-voz do Itamaraty, Ricardo Neiva Tavares, declarou que o ministério se dá conta de que Méndez representa o setor privado argentino e não o governo local. Mas reiterou que as declarações “causaram incômodo” no governo brasileiro e “não contribuem para o clima construtivo, de respeito e de diálogo” estabelecido com a Argentina.

De férias no exterior, Furlan não foi informado por sua assessoria a respeito dos insultos que recebeu do presidente da UIA. Seu ministério preferiu manter-se calado por enquanto. A declaração de Méndez foi uma reação à observação de Furlan de que as salvaguardas aplicadas pela Argentina contra produtos brasileiros desde meados do ano passado “são inaceitáveis”. O ministro brasileiro havia desmontado a tese de Buenos Aires de que o país enfrenta um cenário econômico menos favorável que o do Brasil. Afirmara que a Argentina tem taxas de câmbio, de juros e de inflação melhores que as brasileiras, além de crescimento econômico pelo segundo ano consecutivo, de 8% em 2004, e uma carga tributária menor. O dilema argentino, defendera Furlan, foi seu longo processo de desindustrialização e a ausência de uma clara política industrial, como aquela desenhada pelo governo brasileiro para o País.

Tiro no pé

O insulto de Méndez certamente tornará mais carregado o clima da reunião entre negociadores brasileiros e argentinos no Rio, no dia 25, quando serão tratadas as demandas argentinas de criação de um mecanismos para compensar “desequilíbrios ” e “assimetrias” nas economias dos dois países que teriam impacto no comércio bilateral – as salvaguardas ou outra fórmula. A Argentina também quer a adoção de uma espécie de “código de conduta” para os investimentos estrangeiros na região.

– Também temos setores brasileiros que se sentem afetados pelas importações dos concorrentes argentinos – disse ontem o subsecretário-geral de América do Sul do Itamaraty, embaixador Luis Felipe de Macedo Soares, ao indicar o caráter frágil e contraditório da proposta argentina.

O secretário de Assuntos Internacionais do Ministério do Planejamento, José Carlos Miranda, concorda que a adoção de salvaguardas implicaria também no represamento do ingresso de produtos argentinos ao mercado brasileiro. Miranda também classificou como “absurda” a proposta argentina de criação de um “código de conduta” para os investidores estrangeiros – uma tentativa de orientação da injeção de recursos para evitar a concentrar em um só país ou região.

– A decisão de investimento depende exclusivamente do julgamento das empresas. O que os governos podem oferecer é apenas um ambiente de pouca volatilidade na taxa de câmbio e regras claras e permanentes, como fizemos com a Lei de Falências e a política de microcrédito – afirmou.